A Bagagem de Sharon Pérez
por Deise de Brito
Texto publicado em 29 de julho de 2026
Obra: Ellu es ( Ella es)
Sharon Pérez
País: Bolívia (La Paz, La Paz)
Período que apreciou a obra: 26 de abril de 2025
Local: Museu Nacional de Arte da Bolívia
Evento: Exposição Creadoras – mujeres artistas en Bolívia
Período de abertura: outubro de 2023
FICHA TÉCNICA
Obra: Ellu es (Ella es)
Criação e concepção: Sharon Pérez
Exposição Creadoras – mujeres artistas en Bolívia
Equipe curatorial da mostra: Iván Castellón Quiroga, Jackeline Rojas Heredia, Waldo Danilo Villamor Encinas, Luis Osvaldo Cruz Llanos, Andrea Hinojosa (curadora del CCP)
Apoio curatorial: Aracely Aida Miranda Urquieta, Gloria España Valdivia Del Castillo
Artista apoio Eixo 1: Erlini Tola Medina
Artistas curadoras do Eixo 2: Reyna Mamani Mita, Elvira Janeth Quispe Guzmán, Carla Pamela Casa Guarabia, Lenia Esmirna Orellana Gómez
Apoio em investigação y vozes Eixo 4: Gabriela Behoteguy, Daniela Franco Pinto, Jackeline Rojas Heredia
A obra Ellus es (Ella es) foi selecionada por convocatória para ser parte da Exposição Creadoras – mujeres artistas en Bolívia.
Se seu corpo fosse convidado a viajar para outro lugar e só pudesse ter consigo algumas preciosidades, o que você levaria ? O que você selecionaria diante de tanta variedade?
A obra Ellu es (Ella es) não faz exatamente essa pergunta, mas apresenta uma resposta compreendida pelas escolhas da sua autora: a artista boliviana Sharon Pérez. O seu trabalho foi parte de Creadoras – mujeres artistas en Bolívia, exposição permanente de longa duração que ficou em cartaz entre outubro de 2023 e julho de 2025, no Museu Nacional de Arte (MNA) da Bolívia, localizado no município de La Paz.
Essa exibição, realizada pelo MNA, ocupou várias salas e reuniu obras produzidas entre o final do século XIX e momentos contemporâneos. Parte das obras já eram da coleção da instituição, outras, como a protagonista deste trajeto apreciativo, foram escolhidas por convocatória.
O objetivo era perspectivar a arte boliviana, pela percepção de diferentes mulheres artistas do país, ao enfrentar o desafio de tramar uma história de criação, tensionando o lugar social ao qual as mulheridades são estruturalmente submetidas. A partir disso, nos encontramos com
Obras serenas, mas também rebeldes e provocadoras, algumas impregnadas por um espírito nostálgico, com um traço contido que se detém nas margens da moldura, assim como a voz que permaneceu presa na língua ou a palavra escrita que, dependendo da época, foi considerada “subversiva” ou simplesmente ignorada. Esta mostra nos convida a seguir os pontos do tear e a apreciar sua forma, a completar a frase e a escrever a palavra; compartilha um mesmo espírito vivo em todas as obras: a criação como fonte de vida e de morte, o ajayu 1 das mulheres, das criadoras. 2

Imagem frontal da obra Ellu es (Ella es) de Sharon Pérez. Exposição Creadoras – mujeres artistas en Bolívia. Museu Nacional de Arte da Bolívia. Abril de 2025. Foto de Deise de Brito.
Sharon Pérez, artista plástica, curadora e designer gráfica foi uma das muitas artistas que compartilhou sua criação, nessa grande exposição, cujo projeto curatorial nasceu em 2021 e foi alimentado em 2022, durante o III Seminário Anual de Culturas Visuais, intitulado: “Mulher nas expressões artísticas: musas, criadoras e figuras influentes na produção e nos processos artísticos”.
Sharon, assim como artistas indígenas, a exemplo da aymara Carla Casa, destaca-se pelo tensionamento que produz por meio do próprio ato de estar presente, num espaço museológico, com origem na colonialidade. Considerando que as distintas nuances estruturais, que atravessam os corpos de mulheres cisgêneras e não cisgêneras, a depender das inscrições étnicas, podem ter suas presenças completamente negadas em determinados campos artísticos.
Uma mala aberta com alguns itens, antiga, desgastada pelos usos no tempo, suspensa por fios de náilon presos ao teto da sala do museu. Poderia resumir a obra de Sharon Pérez dessa maneira, no entanto seria desonesto. Tudo o que a mala tem dentro – e as frases que ela traz do lado de fora – gesta um campo magnético que atrai quem aprecia.

Registro, em detalhe, da imagem de Tia Reymunda na obra Ellu es (Ella es) de Sharon Pérez. Exposição Creadoras – mujeres artistas en Bolívia. Museu Nacional de Arte da Bolívia. Abril de 2025. Foto de Deise de Brito.
A criação exposta, no canto da sala, e posicionada entre uma pintura e uma escultura, desperta minha curiosidade por não estar definida em nenhuma dessas duas linguagens. Quando me aproximo mais, após conferir o nome da autora na legenda, identifico elementos que gostaria de ter encontrado, desde o primeiro momento que cheguei ao MNA: documentos e materiais relacionados à cultura negra boliviana. Mais de perto, e ao virar ligeiramente o corpo para o meu lado direito, contemplo atenciosamente a imagem de uma mulher negra atrelada ao fundo da bagagem. Naquele momento, pensei que era um autoretrato de Pérez. Ao investigar, posteriormente, para escrever este trajeto crítico, concluo que se trata de Tia Reymunda da comunidade de Tocaña, um dos territórios mais icônicos para a cultura afro-boliviana, localizado na região do Yungas, no município de Coroico, Estado de La Paz.
Atraída pelo poder de convocação que possui, percorro a obra com mais interesse. E, enquanto executo o caminho, pergunto-me: o que ela é? Uma instalação? Uma pintura expandida e tridimensional? Uma escultura? Uma performance de alguém que está ali, mas não vemos? Contudo, importa que eu não dê tanta importância a necessidade de uma conceituação já que o trabalho faz um convite direto para estar em relação.
Perceber a invenção de Sharon é quase como se coreografar numa escavação. Ligar a lanterna para examinar o que ela inscreveu-escreveu na parte externa da mala; dilatar a aproximação para entendê-la; tentar traduzir o idioma em meio à falta de nitidez das grafias e à superfície desgastada. E, entre um desgaste e outro, reconstruir uma espacialidade para compor possibilidade interpretativa, espacialidade essa permitida pelo que o meu corpo faz para além de estar de frente para a obra. Preciso abaixar, inclinar-me, curvar-me e me contrair, enquanto realizo minha trilha em torno dela.
Do fundo da maleta, Tia Reymunda me/nos observa, independente da direção para onde se caminhe. A quem se apresse em chamar isso de efeito Monalisa ou ilusão perceptiva. Não tenho tanta certeza. Prefiro compreender como deleite perceptivo e ancestral. Tia Reymunda vê com um semblante calmo, risível, assertivamente discordante, inconformado, como se falasse : “é uma obra para entrar, venha! ”. Só acessa o trabalho quem se disponibiliza a encurtar a distância entre o cheiro que vê e o olho que escuta. Por isso considero uma materialidade sinestésica e cinestésica, ao mesmo tempo. Quem a contempla de frente, em modo pintura convencional, equivoca-se, é preciso se mover. A sua documentalidade poética só é interpretada, a partir do movimento e da nossa vontade em deslocar impressões sensoriais.

Parte de trás da mala na obra Ellu es (Ella es) de Sharon Pérez. Exposição Creadoras – mujeres artistas en Bolívia. Museu Nacional de Arte da Bolívia. Abril de 2025. Foto de Deise de Brito.
A mala tem perfurações e manchas. E, ainda assim, é bem cuidada. O manto branco delicadamente colocado. Os recortes de jornais estão colados. Eles evidenciam momentos do ativismo contínuo da comunidade afro-boliviana e são confluentes com os inscritos-escritos na parte externa da mala que, por sua vez, se encontram com o rasgo que a imagem de Tia Reymunda exerce no fundo falso da bagagem, como se a matriarca operasse a reivindicação do eu no coletivo e a afirmação de uma coletividade na sua presença.
Sharon Pérez é uma artista de constância curva, que parece ativar na sua arte o exercício negro afro-boliviano comunitário que a inspira e a forjou, sobre Ellu es (Ellas es), ela comenta:
Surgiu como parte da exposição Tawirandu Lus Alaja, que, na língua afro-boliviana, significa Escavando os Tesouros. "Ellu es". A tia Reymunda, da Comunidade de Tocaña, com seu olhar, nos permite fazer parte de uma viagem pela história afro-boliviana. Uma mala, uma manta e recortes de um jornal da década de 1990 nos falam da luta do povo afro-boliviano para ser reconhecido como parte do povo boliviano. Uma luta que continua, pois, embora hoje façamos parte da Constituição Política do Estado, isso ainda não é suficiente. Na prática, persistem espaços de discriminação, marcados por formas veladas e dissimuladas de racismo.(Sharon Pérez) 3

Imagem da sala de exibição onde estava a obra Ellu es (Ella es) de Sharon Pérez. Exposição “ Creadoras – mujeres artistas en Bolívia”. Abril de 2025. Museu Nacional de Arte da Bolívia. Foto de Deise de Brito.
A partir da citação da artista, cabe ressaltar que o reconhecimento constitucional do povo afro-boliviano ocorreu durante o governo do presidente Evo Morales (2006-2019). Esse fato é fruto de uma longa batalha dos movimentos negros da Bolívia – um dos marcos do processo constituinte – que gerou a nova Constituição Política do Estado Plurinacional boliviano, aprovada em 2009.
Como Pérez pontua, apesar do reconhecimento constitucional, o que é um passo mais que significativo, os cotidianos de pessoas afro-bolivianas ainda são permeados pelas violências discriminatórias, e uma delas são as injustas condições para criar e estar nos espaços artísticos. Não identifiquei outra artista negra boliviana na exposição, além de Sharon, o que implica que a sua presença no Museu Nacional de Artes da Bolívia não pode deixar de ser comentada e celebrada. Simultaneamente, sua suposta “presença única”, como artista negra na exposição, fato que sinceramente não conseguir confirmar, deve ser friccionado para que outras artistas possam, cada vez mais, ter condições para produzir suas invenções e estar, não somente em espaços como o Museu Nacional, mas também naqueles que elas quiserem.
Sharon Pérez, feliz e recentemente, esteve em cartaz no Museu Nacional de Arte da Bolívia novamente; dessa vez com uma mostra individual: “La Máscara nos Mira”. A exposição ficou em cartaz entre 25 de junho e 27 de julho de 2026. Não consegui vê-la, apenas acompanhei pelas redes. Mas meu Okan sente que o olhar entusiasta de Tia Reymunda ainda é um ponto cardeal no seu caminho criativo. Uma orientação que trança o sankofar da negritude boliviana nas alças das bagagens de outras experiências negras de Abya Yala – América Latina, como a minha. E a propósito, na minha mochila nômade eu escolho levar...
Acesse:
Tour Virtual Creadoras – Museo Nacional de Arte
1 Em contextos bolivianos, especialmente andinos (aymara e quechua), ajayu refere-se à força vital, ao espírito, à essência anímica ou à energia que habita uma pessoa.
2 Fragmento retirado de síntese produzida pela equipe curatorial da exposição, disponível em *Material_Brochure-CREADORAS-para-web.pdf . Acesso em 26 de julho de 2026.
3 Citação extraída do texto disponível em: ELLU ES (ELLA ES) Sharon Rosario
Perez Sillerico – Museo Nacional de Arte. Acesso em 26 de julho de 2026.
