A poesia de Miró da Muribeca em Azul Miró, de Quemuel Costa
Mainá Santana
Texto publicado em 20 de janeiro de 2026
Espetáculo: Azul Miró
Quemuel Costa
País de origem: Brasil (Natal- RN)
Assistido em: 21 de novembro de 2025
Local: Sala Cênica da Universidade Estadual do Rio Grande do Norte, Campus Natal (Zona Norte) - UERN.
Período de estreia: 06 à 21 de novembro de 2025
FICHA TÉCNICA
Idealização e performance: Quemuel Costa
Direção: Anderson Feliciano
Dramaturgia: Anderson Feliciano e Quemuel Costa
Pensamento coreográfico: Alexandre Américo
Assistência de direção (Natal): Ita Barbosa
Textos: Miró da Muribeca e Quemuel Costa
Luz: Cléo Morais
Figurino: Itaciara Costa
Trilha sonora: TINOC
Preparação de texto: Josie Pontes (Natal) e Renata Paz (Belo Horizonte)
Design gráfico: Alcino Fernandes
Produção: Ardume Produções (Felipe Fagundes e Thasio Igor)
Assistência de produção (Natal): Fernanda Medeiros
Apoio Técnico: Flávio Torreão
Foto cartaz: Eunilo Rocha (FNT Guaramiranga)
Fotos aberturas de processo: Fabricio Rocha (Salvador) e Pamela Bernardo (Belo Horizonte)
Fotos temporada de estreia: Brunno Martins e Maria Antonia
Produções de mídias: MariaBoa Produtora (Claudia Mariana)
Registro audiovisual: Zuma Link e Julia Donati
Financiamento: Este projeto contou com a parceria e o apoio de Ardume Produções Artísticas, Espaço A3, Cia de Teatro Improviso, Luna Lunera, Latep, Nace, DEART e UFRN. É uma realização da Secretaria Municipal de Cultura de Parnamirim, Prefeitura Municipal de Parnamirim, Fundação José Augusto, Secretaria de Estado da Cultura, Governo do Estado do Rio Grande do Norte, Sistema Nacional de Cultura, Política Nacional Aldir Blanc de Fomento à Cultura, Lei Paulo Gustavo, Ministério da Cultura e Governo Federal.
“Hoje eu vou ser claramente um negro”.
A declaração na abertura, anotada em uma cartolina branca, oferece ao público uma pista de para onde “Azul Miró” aponta: um lugar político, afirmativo de sua negritude e num lugar híbrido de linguagem. Quemuel Costa inicia o espetáculo fora da caixa cênica e, a certa distância do público, caminha com a cartolina no peito. Adiciona pausas, nós apreciamos. O artista direciona os presentes, apenas com gestos, até a sala cênica. O trânsito entre performance, teatro, dança e literatura se revela, pouco a pouco, ao longo do trabalho.

Quemuel Costa em Azul Miró, apresentação de estreia, no dia 06/11/2025, na sala cênica da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Cena inicial, foto de Brunno Martins.
Sentamo-nos em semicírculo. A frontalidade é definida por uma lona azul de 2 m x 2 m estendida como tela de projeção. Os sapatos têm o tom anil do objeto, cuja borda de 15 centímetros está virada sobre o chão. O modo como o intérprete sobe na lona não é teatralizado, nem tem cerimônia. Não há mais valor na caminhada do que na interação com o objeto; e, mesmo na ação que se segue - uma belíssima sequência de gestos que se repetem - falta nos pés certa precisão, que sobra nas mãos, desenhando o espaço. Sei que esse é meu olhar de pesquisa de movimento, na linguagem da dança. Eu crio um pequeno hiperfoco nos pés, pela cor que se dilui. Há algo quase de figura-fundo, proposta pela figurinista junto à iluminadora: pernas e braços nus, tronco de camiseta branca, luz explodindo no peito onde antes havia a plaquinha. Um homem negro que se dilui num fundo azul, quadris e pés submersos. Toda essa cena em cima da lona, propõe a teatralidade da equipe técnica: gestos que se aproximam da dança e algo da atitude e da fisicalidade do intérprete que se coloca na performance; vou perdendo a fronteira entre as linguagens.
O corpo do intérprete e o desenho das cenas trazem um pouco das sensações que as palavras de Miró evocam. Uma devastação na simplicidade, do que pude conhecer do poeta. Assim, a performance tem boa síntese.
Ela está no figurino, de Itaciara Costa; na cenografia da lona azul quadrada, que referencia o teto das barracas de feira de Salvador - ou de Natal, de Recife. Ponto para a boa dramaturgia, de Quemuel e Anderson Feliciano; o último, assina também a direção do trabalho.

Quemuel Costa, apresentação de estreia de Azul Miró na UFRN. Cena dos gestos descrita no texto, foto de Brunno Martins.
O objeto cênico traz a rua para a cena e, por consequência, também a poética de Miró da Muribeca, poeta de Jaboatão dos Guararapes (PE). “Muribeca”, do bairro na grande Recife, “Miró”, de Mirobaldo, jogador do Santa Cruz (Recife). O território se inscreve no sujeito. Quemuel, residente em Salvador, nascido em Parnamirim (RN), na grande Natal, viveu no bairro de Bela Parnamirim - espera: “Bala Parnamirim”, ele mesmo corrige, no texto inicial. Azul Miró é irmão de seu trabalho anterior; naquele, a mãe estava no centro. Aqui, o pai tem seu lugar como lembrança, mnemônico de negritude própria. É notável o trabalho de lapidação do texto, bem conduzido em sua preparação.
Oralitura. Performance e Literatura. Novamente as fronteiras se borram. Azul Miró não me parece buscar “resolução” para esse hibridismo; e, sim, abre um campo de pesquisa sobre como relacionar linguagens, usando potencialidades físico-técnico-artísticas do intérprete e de sua direção.
É interessante notar que o trabalho localiza-se, também, num contexto de produção acadêmica, pesquisa como prática, além de palco, luz e tempo. Não é teatro, nem dança, nem oralitura, embora beba de. E é isso que provoca tensionamentos. Miró da Muribeca decora todos os seus poemas. Não é literatura escrita, é poema. Declarar-se poeta sempre lhe custou alto, desde a primeira publicação no jornal da Superintendência do Desenvolvimento do Nordeste, a Sudene. Não queriam publicar, porque ele era faxineiro; “sou escritor, sou poeta”. Não é performance, é declaração performática. O que é um trabalho que se inscreve nesse lugar de encruzilhada? Como se nomeia? Para que Quemuel possa borrar fronteiras, Miró, ancestral, precisou brigar pelo título nas linguagens.
Quemuel, cujo desejo manifesto era estar em cena com Miró, evoca o artista com as palavras, a materialidade do elemento cênico, mas também com seu corpo. E, aí, eu me questiono, junto a ser “claramente um negro”, o que de sua presença cênica conecta-o materialmente com Miró. Como é o corpo de alguém que performa na rua? Que declama poemas, que faz oralitura, que percebe encruzilhadas inscritas em si? Que briga por espaços de registros para a posteridade? Imageticamente, surgem o desvio, o enfrentamento, a ginga, o futebol de várzea. Quando, no contexto de ensaio aberto - realizado apenas para pessoas artistas negras da cidade de Natal (RN), o tecido em seu giro encosta na plateia, desvia, toca, Quemuel revela que não vê, por estar sob o tecido, não enxerga o limite. Acho interessante essa posição, no contexto do trabalho: não ver o limite e procurar senti-lo com a inteireza da fisicalidade. E a gente que saia da frente, tire a perna, se deixe encostar; o público que jogue junto nessa roda que a praça abriu. Há aqui algo sobre a rua, algo sobre a gira, e o pensamento coreográfico de Alexandre Américo fica evidente em sua pesquisa.

Quemuel Costa, na cena final de Azul Miró. Foto de Brunno Martins.
Antes da gira, e de um grande voo sobre o mar, a cena é o artista enrolado na lona, deitado no chão como num casulo. Inebriante. Perco o que é tronco, o que é perna. O azul do tecido, junto ao foco de luz branca no chão, cria um sombreado inteligente de Cleo Morais. O jogo de sombras vem antes de um azul que lava o palco, tudo no mesmo tom. Lembra-me um pouco o trabalho de Josefa Pereira, Hidebehind, cuja iluminação é o que releva o mote do trabalho: com luz especial se vê a pintura escondida no corpo da artista. Embora o azul já esteja dado, é estonteante o momento em que o público é lançado ao mar, citado textualmente pelo ator, minutos antes. Miró nos convida a entrar no mar, junto a Quemuel. Ainda sobre a iluminação, a luz que pulsa com o baixo e sobe do corpo do artista na cena final, bem como o pequeno balanço de acender e apagar, no seu percurso circular, demandam bastante delicadeza na operação - nesse dia, realizada por Flávio Torreão.
Para completar a técnica, a trilha, do rito, dos sinos de vento, do mar, a voz. Tinoc é bastante feliz em sua composição. Ele ouve o espaço preciso para a trilha, respeita o silêncio que o trabalho pede. Altamente elegante.
O espetáculo tem seu lugar político de discurso aberto. “Todo o pivete do centro sou eu” me convoca a memória, e imagino meu pai como um morador de rua, ou meu avô, de quem herdei o rosto. É o imaginário que criamos, a partir do real, e o real que criamos, a partir do imaginário, o que me chacoalha. Ainda, sentir a necessidade de dizer de nossa negritude, por esse viés em cena, me entristece e também me põe a pensar sobre quem é o interlocutor de nossos discursos cênicos. Parece um pouco “editalesco” perguntar sobre qual público-alvo pode dar espaço para tirar a alvura do público. Ou lembrar que não apenas temos alvo no corpo, mas sim que somos sujeitos em criação de imaginários e futuros. Nessa toada, saliento a negritude de quase toda a equipe de produção e criação de Azul Miró; todas as pessoas citadas nesse texto, exceto Tinoc, são pessoas negras.
Ainda que Azul Miró tenha discurso de embate, ele preserva esse espaço de criação. Poderíamos nos fixar à imagem de um corpo morto, enrolado numa lona, pós massacre nos complexos da Penha e do Alemão. Uma cena que se repete, de quando em quando, infelizmente; e que, quando Azul Miró estreou, era fato recente. Só que o próprio trabalho, com delicadeza, sutileza e elegância, tira-nos desse lugar: existe a trilha, o modo como a cena é construída, como vamos chegando com Miró e Quemuel a esse mar. E não estou sozinha nessa percepção: foi algo dito em uma roda de conversa. Mesmo que se chegasse à imagem, ela era dissolvida pelo ato cênico - cuidadoso na medida.

Equipe técnica de Azul Miró ao final da apresentação de estreia. Da esquerda para a direita Thasio Igor, Itaciara Costa, Fernanda Medeiros, Anderson Feliciano, Quemuel Costa, Alexandre Américo, Maria Antônia, Ita Barbosa, TINOC, Cléo Morais e Flávio Torreão.
Encerro este texto com a felicidade de ter assistido ao trabalho de um artista em amadurecimento, trabalhando em coletividade, que trilha o percurso da pesquisa, da criação – de modo atento ao seu próprio fazer. É linda a transição final, Quemuel deixando a energia se dissipar, da lona na cabeça à lona nos braços, num final em regozijo, “Não deixo um poema para amanhã”. De fato, me parece que estiveram juntos em toda a encenação.
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