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O teatro que conta histórias e histórias que encantam o teatro

por Deise de Brito

Texto publicado em 24 de setembro de 2026

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Espetáculo: Gotas de Saberes 

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Cia Arteatro

 

País: Brasil ( Boa Vista – RR)

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Período que  assistiu o trabalho: 25 de outubro de 2025

 

Local: SESC 24 de maio, cidade de São Paulo

 

Evento: 4º Dona Ruth: Festival de Teatro Negro de São Paulo

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FICHA TÉCNICA

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Direção Geral: Márcio Sergino.

 

Consultoria em Direção e Dramaturgia: Marcio Marciano.

 

Texto e Dramaturgia: Anderson do Nascimento, Silmara Costa, Victor Manoel.

 

Percussão e Apoio: Márcio Sergino.

 

Pesquisa e Produção Musical: Victor Manoel.

 

Produção Executiva: Silmara Costa e Pam Menezes Duarte.

 

Elenco: Anderson Nascimento, Aravis Lá Moatia e Silmara Costa

 

Iluminação: Baronso Lucena

Fotografia: Lary Gaynett

 

A referida obra foi realizada por meio do Programa Rouanet Norte e patrocínio do Banco da Amazônia.

Eu não tenho certeza , tenho histórias.

(Mariana Bernardes)

Numa tarde de sábado, no SESC 24 de Maio, localizado na cidade de São Paulo, caminhos em sutileza poética foram compartilhados para uma experiência em encanto. A Cia Arteatro, grupo teatral de Boa Vista–Roraima, com mais de 30 anos cultivados na memória das artes cênicas, nos enlaça a um tripé contação-teatro–histórias, cuja criação e interpretação fluem a partir das artesanias narrativas de compreensão de mundo do povo Macuxi, em diálogo com as vivências de intérpretes-contadores da obra.

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Ali, no pátio aberto, apreciado por um público com faixas etárias variadas, inclusive as das infâncias, Gotas de Saberes foi/é espacialidade formada por uma parceria histórica e vital no movimento contra a violência das estéticas em colonialidade: pessoas artistas indígenas e negras. Nesse encontro, o elo, a teia, o lugar de aparição em conexão operam a fim de instituir materialidades absolutamente solucionáveis no vínculo com a plateia.

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Como um ritual de abertura, a entrada de uma performer que olhou quem assistia , através de dois limões, um na direção de cada olho,  tornou-se um convite a nutrir o lugar de onde se vê por meio de outros energéticos. As crianças ficaram curiosas, queriam saber: por que ela olha com, ou através, dos limões? O que ela consegue contemplar além do que a gente enxerga?

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Apresentação de Gotas de Saberes com a Cia Arteatro realizada no SESC 24 de maio, no 4º Dona Ruth: Festival de Teatro de São Paulo,  em outubro de 2025. Foto de Pedro Martins.

O “somos”, nomeando a multiformidade que constitui povos originários, entoado em coro pelo elenco de forma aliviada e certeira, é tecido também num cenário com grafias, acessórios cênicos e instrumentos musicais, que anunciam a responsabilidade da companhia em não somente comunicar a heterogeneidade de etnias nativas, mas também organizar palavras em tramas, ocupando ao máximo cada uma delas.

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Nesse rastro, as musculaturas do dizer as histórias ganham tônus por intermédio de movimento imitativo simbólico: a coluna de Aravis Lá Moatia, que desenha em si mesma uma curva singular para contar os desejos da onça Zeneida; o tempo dilatado-preciso de caminhar, expresso do mesmo modo na vocalidade de Silmara Costa, que vitaliza o Jabuti; além das relações cênicas estabelecidas entre o grupo, dentro e a partir das histórias cantadas com Márcio Sergino, que assume a dianteira instrumental, além de ser diretor do espetáculo.

Márcio Sergino, Silmara Costa e Aravis Lá Moatia  em Gotas de Saberes. Apresentação realizada no SESC 24 de maio, no 4º Dona Ruth: Festival de Teatro de São Paulo,  em outubro de 2025. Foto de Pedro Martins.

No conto correspondente ao duelo entre Onça Zeneida e o Jabuti, nos movimentamos por diversos territórios do mundo sem tirar os pés de onde estamos, ao mesmo tempo em que viajamos ao imaginar a partir de percursos de voz, movimento e som das pessoas ocupantes da obra. Solução que nos coloca também entre a crítica aos inglesismos e a celebração de elaborações ancestrais, como no caso da estratégia coletiva do Jabuti para conquistar a vitória em relação à onça: o grifo do “passo lento da sabedoria”.

 

A transição para a narrativa da planta encantada, transformada-nascida do menino Timbó, que é gerado em Dona Anta, parece solicitar ajustes ou uma ponte poético-corporal que a sustente. No entanto, isso não prejudica a corrente dessa história, que investe em alternativas com acessórios de cena e performances vocais entre fios representativos-interpretativos que se ligam diretamente à atenção de quem percebe o trabalho. À sombra disso, aprendemos que “para que a erva funcione é preciso fazer silêncio” e escutar a diversidade em existir. 

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O efeito transitivo para o último conto é mais cíclico, apresentando o Camarãozinho Pajé, que destaca ( arranca) os olhos do rosto para conhecer as profundidades e riquezas, nas águas contrárias do Rio Tacutu, ensinando ao ambicioso dono onço grileiro que é necessário respeitar os mistérios do profundo para adquirir miradas navegantes que reconhecem que o mundo só acaba no infinito do outro mundo.

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Ao longo das feituras da cena, ferramentas de articulação com o público são utilizadas, demonstrando o quanto esse labor é complexo, especialmente com crianças. Na concepção-contação, logicamente inexiste a quarta parede, dando a impressão de que o trabalho se inspira, indubitavelmente, no modo circular de contar e estar, o que encanta o próprio processo cênico-teatral, propondo outras formas de apreciação, já que também estávamos sentades em pequenas arquibancadas e almofadas, sempre em aproximação com o chão e com a equipe de artistas.

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Se, por um lado, o exercício de ligação com a audiência é realizado, por outro nos aquece o fato de que contar para e com a plateia pode ser um ato em risco, pois as soluções e os encadeamentos cênicos precisam de uma anatomia própria para tal, além de uma alta disposição das pessoas intérpretes para jogar com, sem que isso implique uma obrigação para quem assiste. Mas o grupo tem a pisada e, certamente, múltiplas vias continuarão a se revelar na medida em que a obra siga sendo contada.

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Esse passo, igualmente, abre trilhas para o teatro apresentar cognições de mundo sem aquele aspecto ocidental de moral ou lição ao final; em oposição a isso, há um espaço precioso para que elaboremos nossas conclusões ou, se quisermos, nossas ações-reflexões. No caso da Cia Arteatro, a escolha é pelo continuar fazendo em coletivo; uma comprovação nesse sentido é o encerramento da apresentação, que convida as crianças a conhecerem de perto o cenário, a manusearem instrumentos e a trançarem com a música suas percepções.

Silmara Costa e Aravis Lá Moatia  em Gotas de Saberes. Apresentação realizada no SESC 24 de maio, no 4º Dona Ruth: Festival de Teatro de São Paulo,  em outubro de 2025. Foto de Pedro Martins.

Nesse gesto, o encanto continua na vivência memorial do corpo de quem assiste, gestando cadências que dialogam com visíveis, invisíveis e outras individualidades ancestralizadas, inclusive o artista e integrante Anderson Nascimento, revivido in memoriam e celebrado ao final pelo elenco.


Daí entende-se que a transmissão comunitária evocada, ajeum essencial nas articulações cênicas não coloniais, ecoa no aqui do que podemos deglutir com nossos sentidos e no lá-de-cá que vivemos na pele. Anderson estava ali o tempo todo, em cada pausa, frase e toque de comunhão. Anderson, certamente, contou e sorriu.

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Referência: 

A frase que constitui a epígrafe é de autoria de Mariana Bernardes (MG), artista, educadora, contadora de histórias e mestra em Artes da Cena pela Escola Superior de Artes Célia Helena. 

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