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Guariló a las AfroArgentinas

por Jhow Carvalho

Texto publicado em 04 de junho de 2026

Espetáculo: Afroargentinas - Una obra de teatro documental.

Afroargentinas

 

País: Argentina ( Buenos Aires)

 

Assistido em: 27 de fevereiro e 01 de março de 2026

 

Local em que assistiu: SESC Belenzinho - São Paulo/SP - Brasil.

 

FICHA TÉCNICA

Autoria: Florencia Gomes, Jessica Salinas Lamadrid, Ivanna Smolar

 

Atrizes: Florencia Gomes e Jessica Salinas Lamadrid

 

Direção: Lina Lasso

 

Assistência de Direção: Naiara Roque Ferreira

 

Formato teatro documental: Ivanna Smolar

 

Intérprete de Libras: Nzambi (Libras Diferenciada)

 

Operação sonoplastia: Jonas Coutinho

 

Operação Iluminação: Tati Santos

 

Operação audiovisual: Lina Lasso e Naiara Roque Ferreira

 

Articulação Artística (Brasil): Arquivos de Okan

 

Produção Executiva (Brasil): Will Lima (Sankofa Solar Produções)

 

Assistência de Produção (Brasil): Carla Stela

O espetáculo “Afroargentinas - una obra de teatro documental” foi construído de forma completamente independente , com recursos próprios das artistas. 

De 27/02 a 01/03/2026 esteve em cartaz no SESC Belenzinho la obra Afroargentinas e, em 03/03/2026, houve a exibição do documentário em processo AfroArgentina no Centro de Pesquisa e Formação (CPF) do SESC São Paulo.

Assisti ao espetáculo nos dias 27/02 e 01/03, respectivamente a primeira e a última apresentação dessa curta temporada na cidade de São Paulo/SP - Brasil. Também assisti à abertura de processo do documentário e escrevo este Trajeto Apreciativo para compartilhar com vocês como foram minhas experiências e sensações, sobre a obra de teatro documental.

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Coletivo Afroargentinas da esquerda para a direita Florencia Gomes, Jessica Salinas Lamadrid, Naiara Roque Ferreira e Lina Lasso, ao final do espetáculo Afroargentinas, no SESC Belenzinho. Foto de Everton Ferreira

Las Afroargentinas son Florencia Gomes, Jessica Salinas Lamadrid, Naiara Roque Ferreira e Lina Lasso.

​Lina Lasso é uma mulher negra, nascida na Colômbia, que atualmente reside na Argentina e é a diretora da obra.

Naiara Roque Ferreira tambien es una mujer negra argentina y es asistente de direción de la obra.

Jessica Salinas Lamadrid é uma pessoa negra argentina, e - pelo que me recordo - não se identifica especificamente com o gênero mulher e atua na obra.

​​

Florencia Gomes es una mujer negra argentina y es actriz en la obra.

É importante destacar que Afroargentinas es una obra de teatro documental, o que entre outras coisas quer dizer que as histórias de vida das pessoas atuantes são o âmago do espetáculo, histórias essas que são tão importantes. Além de ser narrada por vozes e corpos, complementadas por arquivos pessoais em foto, vídeo, áudio de whatsapp, a obra  utiliza esses documentos, para produzir um novo que é a obra em si. 

 

No fundo do teatro, há um telão que hace la tradución de la obra para el português. Além disso, em cena, há uma câmera que foca, dá zoom em algumas fotos, captura planos e detalhes, algumas palavras e frases escritas com canetinha ou canetão preto, em folhas brancas, em elementos cênicos, como um tecido azul e um facão. Essas imagens também são projetadas no telão. Aos meus olhos, o cenário muitas vezes parecia um altar.

Detalhe de elementos cênicos que  compõem a obra Afroargentinas que esteve em cartaz no SESC Belenzinho. Foto de Everton Ferreira

No espetáculo, não necessariamente há personagens (daqueles mais tradicionais de teatro), que a gente lê e vê nos textos clássicos, como tragédias, dramas e comédias; então, não diria que as pessoas em cena representam. Narram pessoas reais, narram suas experiências de vidas anteriores, interpretam-se com menos idade, narram e presentificam  familiares - ancestrais.

 

A obra aborda as “Afroargentinidades”. Afroargentinidades? Creio eu que, antes de ver o espetáculo, eu nunca tinha escutado, nem lido essa palavra. Descobri, há pouco tempo, que o tango também é uma dança negra, …fora isso não sei se eu já tinha pensado que existem pessoas negras na Argentina, nem sabia quais eram as culturas que estas pessoas produziram.


Por que será que isso aconteceu? Vivo no Brasil - um país que já sediou congressos de Eugenia, que já teve como objetivo que em 2012 a população negra brasileira fosse 0%, plano que falhou miseravelmente, pois hoje – em 2026 – somos mais de 56%. Tentaram e tentam apagar nossas histórias, neste território.  Em lugar disso, quantitativamente, somos muitas vozes, para relembrá-las, para gritá-las. Entretanto, parece que na Argentina é diferente. Na Argentina se criou um mito de que no hay personas negras; como no Brasil se criou o mito da democracia racial.

Em “Afroargentinas”, Florencia Gomes y Jessica Salinas Lamadrid compartilham conosco a encruzilhada, a contradição de crescer em ambientes orgullosamente negros ao mesmo tempo em que tem que lidar com experiências racistas no cotidiano, como infelizmente é comum às pessoas negras.

 

Florencia Gomes, com S, tão comum no Brasil, mas tão pobre, tão negro, tão sem prestígio (igual a chamar Silva no Brasil) é descendente de pessoas caboverdeanas que migraram para Buenos Aires, no século passado (quem diria que, na Argentina, há pessoas negras e que elas também vivem na capital?!!).

Florencia Gomes no espetáculo Afroargentinas, no SESC Belenzinho. Foto de Everton Ferreira

Florencia Gomes tiene una familia orgullosamente negra, una persona importante en su trayectoria es Miriam Gomes, professora de Literatura Africana de Língua Portuguesa, militante e liderança do movimento negro argentino e o mais importante de tudo: sua tia - Tia Miriam.

 

Em seu relato, Florencia descreve com riqueza a casa de tia Miriam, fala que havia máscaras africanas, alguns CD e muitos, e muitos, livros. Além disso, há fotos dessa casa. Quando conversei com Florencia, ela me contou que Tia Miriam assistiu ao espetáculo, muitas vezes, e que se sente um pouco exposta com o detalhamento da descrição de sua antiga casa. 

Tia Miriam é uma figura central, para a construção de Florencia Gomes como mulher negra. Um dos pontos que mais me impactou, em sua história, foi quando ela narrou que, um dia, quando era criança, chegou à casa de Tia Miriam e disse: “Tia me gusta ser negra, yo estoy orgullosa”; e Tia Miriam pediu para que ela repetisse mais alto, subisse em uma cadeira e dissesse ainda mais alto. 


Mas, como na vida de toda pessoa negra, nem tudo são flores. Florencia também relatou um episódio de racismo, ocorrido na escola.Tendo a acreditar que a escola é o lugar em que as pessoas negras experimentam o racismo primeiro, se não nascemos em uma família orgulhosamente negra, a escola é o lugar que nos faz descobrir que não somos somente crianças, pessoas, somos negras, negros, negres.

Florencia Gomes conta que: en la escuela, la gritam negra de mierda. As experiências de racismo sempre são dolorosas; e, na infância, na escola, parece que é um pouco pior, até porque a gente ainda está construindo repertório para se defender. O comportamento de Florencia muda em casa e em relação à escola; a família percebe que algo aconteceu, até que ela consegue contar. Sua mãe e sua tia vão à escola, cobram, exigem postura, exigem reparação, não escutam, falam, sabem que são as protagonistas e estão com a razão. Hay cosas que no se pude dejar pasar; e uma delas é o racismo. 

Jessica Salinas Lamadrid já se apresenta como descendente de pessoas negras que foram escravizadas na Argentina, e compartilha conosco que faz parte da 6ª geração de sua família em território argentino.


O candombe portenho faz parte da construção da identidade de Jessica Salinas Lamadrid, como persona negra; além de fazer parte de seu DNA, como cultura de sua família, de seus ancestrais. Jessica, generosamente, compartilha conosco vídeos das festas de sua família em que se toca, canta e dança candombe – encontro de gerações. Essa manifestação é tão comum, na família de Jessica Salinas Lamadrid, como em algumas famílias brasileiras é uma roda de samba, um samba de roda, dançar samba rock, forró, ou até mesmo músicas e coreografias que se tornaram hits atemporais, como “segura o tchan” e “na boquinha da garrafa”.

No entanto, Jessica Salinas Lamadrid foi adolescente e, ainda por cima, uma pessoa negra. Em seu relato, conta que na época estudava muito longe de casa: aquele papo de ser uma das primeiras pessoas a entrar no ônibus e uma das últimas a descer, tinha vergonha de seu corpo, de seu cabelo, de si, independentemente do clima sempre usava um agasalho muito maior do que seu tamanho e sempre com touca, capuz, para esconder o cabelo.


Um dos momentos de contradição de sua encruzilhada são seus 15 anos, la quinceñera. A família de Jéssica Salinas Lamadrid é bastante festeira, toca candombe sem nem precisar de uma ocasião especial; então, imaginem quando tem motivo para celebrar! Por isso ela seria descoberta, saberiam que ela morava longe, saberiam que ela era uma pessoa negra, tudo que ela estava tentando esconder.

Jessica Salinas Lamadrid tocando tambor durante o espetáculo Afroargentinas, no SESC Belenzinho. Foto de Everton Ferreira 

Em meio aos seus medos de adolescente, Jessica pede a sua mãe para que os tambores não fossem à sua festa, e a mãe lhe responde:  “se você quiser, você que não vá, mas os tambores irão, e eles vão mesmo!”, vão aos montes, até quem nunca tocava tocou.Sua festa enche, festa de família que sabe fazer festa e gosta. Ela se torna mais popular na escola, talvez até menos tímida.

Nas histórias de Jessica Salinas Lamadrid, as festas são centrais. Ela dança, ela sempre conta suas histórias com o corpo, ela compartilha conosco uma importante memória pessoal que é coletiva, conta que – no início de sua adolescência – a família ia a um local chamado Casa Suíça para, durante 8 noites, comemorar o carnaval. Era local onde a comunidade afroargentina se reunia para tocar, cantar e dançar, para viver e celebrar sua cultura, para mostrar que, em um país que as queria mortas, elas sobreviveram, cantaram, tocaram, e dançaram. Produziram cultura. Acredito que a cultura é uma prova viva de nossa humanidade, manifestações como o candombe portenho, o jongo, a capoeira e o maracatu são sofisticadas, tecnologias ancestrais.

Para muitas pessoas afroargentinas essas eram as 8 noites mais esperadas do ano. Jessica Salinas Lamadrid, não só compartilha conosco suas memórias, como também compartilha um áudio de sua tia Norma, em que ela traz memórias de mulher adulta, que conta como amava e como ansiava por essa época do ano, como queria chegar logo na Casa Suíça e ainda canta. Ainda que a Casa Suíça tenha sido um importante quilombo urbano da memória negra argentina, mesmo em meio a protestos, ela foi demolida. Um país que constrói um mito de que não há pessoas negras, não irá querer preservar seus espaços de resistência.

É a partir das histórias de Jessica Salinas Lamadrid que aparece a palavra Guariló. A palavra mais forte do espetáculo, sem tradução, é uma palavra completa - Guariló é e existe em si, provavelmente palavra africana de alguma língua tradicional, caboverdiana, que se preservou e se repete há séculos. Guariló é dito no começo do candombe, e o tambor também fala Guariló. Também serve para animar a festa, traer el fuego del candombe – é uma palavra de força, saudação, invocação. A tradução que Jessica fez para a nossa língua foi “Axé” e, realmente, há processos históricos muito comuns entre Axé e Guariló. Ao final das apresentação, da exibição do documentário e em nossos encontros, nós sempre dizíamos: Guariló.

Entonces, Guariló a todas las personas negras en Argentina, en diaspora, en latinoamerica, incluso en Brasil.

Guariló!

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