top of page

“Menino” e o futuro que estamos construindo para nossas infâncias

Correnteza Braba

Texto publicado em 23 de setembro de 2025
 

Espetáculo: Menino

Paulo Martins 

País de origem: Brasil (  Manaus - AM)

Assistido em: Agosto de 2025

Local: Central Única das Favelas - CUFA/AM

Período de estreia: 27 de julho de 2025

 

FICHA TÉCNICA

Realização: Café Preto Produções

Direção, atuação e dramaturgia: Paulo Martins

Assistente de direção e iluminação: Emily Danali

Assistente de direção: Taciano Soares

Sonoplastia e composição musical: Enos Lopes

Produção musical: Mady

Assessoria de Marketing: Estúdio Visão Periférica

Designer: Lua Bentes

Direção de arte: Francisco Ricardo

Produção executiva: Café Preto Produções 

 

Produção de locação: Marcelo Rosa

Apoio: CUFA-AM

Financiamento:  A abra "Menino" foi criada com o apoio financeiro da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa por meio do edital de Teatro da Política Nacional Aldir Blanc

Na minha infância, decidi comemorar meu aniversário. Reuni todos os materiais que estavam ao meu alcance, para fazer a festa possível - encontrei apenas tijolos. Realizando um grande esforço físico, naquela tarde quente e úmida manauara, carreguei os tijolos e os organizei juntos, deitados ao chão, estava ali a estrutura mais importante da festa: o palco.  Não havia refrigerantes, balões, doces, salgados, nem mesmo o bolo. Também não havia convidados, a única pessoa que entrou pelo portão de casa foi minha mãe, já pela noite, após mais de 12 horas de trabalho, sua única ação foi ordenar que eu organizasse a bagunça e guardasse  os tijolos.

E, com o intuito de celebrar a vida de sua criança e oferecer a ela uma - ou várias, festas de aniversário, o ator manauara e cria da favela do Zumbi dos Palmares, Paulo Martins, escreveu, atuou e dirigiu o espetáculo autobiográfico: “Menino”. Esse espetáculo circulou em 2025, na capital amazonense, por três escolas públicas de regiões periféricas, tendo como espectadores estudantes de fundamental dois (11 a 14 anos), ensino médio (15 a 18 anos) e fez uma apresentação aberta ao público, de jovens e adultos em sua maioria, no centro da capital. A escrita deste texto parte de afetações e elaborações feitas junto a essas quatro apresentações,  ou melhor, às festas de aniversário de “Menino”.

Ao entrar no espaço da apresentação, os espectadores deparam com ambiente silencioso e  frio, com luz baixa sob a qual podem ser observados apenas fragmentos dos objetos cênicos. Ao fundo, o ator se aproxima de espectadores e, em tom conciso,  conta  sobre a função do cordeiro, em rituais de purificação, descritos no “antigo testamento” da Bíblia; os animais eram sacrificados para a expiação dos pecados e para a reconciliação com deus.

No entanto, hoje quem é sacrificado tem bairro, tem cor de pele e tem expectativa de vida baixa; então, morre ainda menino. Mas hoje não, hoje menino vai viver!  (Trecho da dramaturgia original de “Menino” de Paulo Martins)

Já na primeira cena, o ator-criador coloca-se em lugar de contraposição às narrativas históricas e midiáticas, que reservam ao corpo racializado o lugar da morte e/ou da precarização da vida. Firma-se o compromisso de discutir sobre a dignidade, na vida das crianças racializadas, que vivem nas periferias do país e, especificamente, nas periferias de Manaus, no Amazonas - o Estado com a maior concentração de população vivendo em favelas e/ou comunidades urbanas no Brasil.

01_Espetáculo_Menino_Estúdio_Visão_Periférica.jpg

Apresentação do espetáculo “Menino”, em escola pública da zona periférica, na cidade de Manaus, para estudantes do ensino médio. Foto do Estúdio Visão Periférica.

Rapidamente, o som do atabaque, tocado por Enos Lopes (o DJ da festa), toma conta de todo o espaço e é engrandecido com o ponto-cantado de Erê/Ibeji “Eu quero doce / eu quero bala / eu quero mel pra passar na sua cara”, a animosidade das melodias da percussão passa a colorir o espaço, e a luz quente revela os objetos cênicos: o bolo com glacê branco sobre a mesa dobrável de ferro, os descartáveis coloridos, as garrafas pet de refrigerantes, os balões adornando as paredes. Uma festa de aniversário infantil, ao estilo dos anos 2000, revela-se frente aos nossos olhos; crianças e adultos conectam-se, rapidamente, com esse ambiente familiar e nostálgico.

Em outros momentos, o atabaque retorna com sensibilidade e cuidado, uma cena bonita é o entrelace entre a batida eletrônica do hip-hop acompanhada pela percussão orgânica, um  toque entre o ancestral e o contemporâneo – que cria sensação de pertença aos corpos negros e indígenas presentes.

Nessa festa, os espectadores são os convidados; e é estabelecida, desde o início, uma relação de proximidade entre o ator e os espectadores. O texto vivo vai se transformando com as respostas dadas pelos presentes; “Menino” vai criando intimidade com os convidados, e nasce uma relação afetuosa e familiar. Para tanto, o ator está sempre  muito atento ao jogo, às respostas, ao que foi dito, ao que foi silenciado, além de necessitar nutrir  essa intimidade com sabedoria, e consegue como um bom erê.

A chegada de Menino torna tudo mais divertido, com seu jeito curioso e suas perguntas inusitadas, que colocam em dúvida as certezas mais banais: “O que você está fazendo aqui?” / “Isso é uma festa de aniversário? para quem?”, até questionar problemáticas sociais que atingem as classes mais baixas e corpos racializados, como: “O meu tio usa droga, sabia?” / “Como é se sentir livre?” e “O que é CPF cancelado? Por que são de meninos como eu?”. “CPF cancelado” é uma gíria popular para mencionar assassinatos e foi fortemente utilizada por um apresentador de jornal televisivo apelativo, direcionado para mortes e prisões de jovens afro-indígenas de Manaus, majoritariamente. Esses momentos de tensões e seriedade, cheios de complexidade emocional, sendo vivenciados e narrados por uma criança, denuncia os caminhos alarmantes que a nossa sociedade vem percorrendo e projetando para o futuro dos nossos futuros.

Apresentação do espetáculo “Menino”, cena em que é contada a história de José Renildo. Foto do Estúdio Visão Periférica.

Ainda que estejamos no ambiente festivo de um aniversário, o Menino nos leva para passear pelo seu cotidiano e em diferentes momentos de sua vida: o quase primeiro beijo, a relação com a avó e com o bicho de estimação, o seu primeiro amor, o momento de assistir desenho na TV e a vez em que soltou papagaio na rua… Embora esses momentos sejam comuns, na infância de muitas pessoas, em cada cena, percebemos as várias camadas que atravessam uma infância negra, periférica e de uma família disfuncional. O que parece é que o Menino vive sufocado, atingido por questões sociais severas, e não pode viver sua infância em plenitude e com acesso a direitos básicos, como a própria Constituição brasileira prevê. Estão os nossos corpos sendo desrespeitados e violentados desde a infância?

A dramaturgia de Paulo Martins cria um jogo com o nosso emocional, possibilita-nos momentos de altas risadas e o despertar de memórias felizes da infância; e, logo, nos arremessa em uma cena de violência. Em sua maioria, a sequência da dramaturgia é composta nesse modo, fazendo com que o corpo dos espectadores se delicie entre gargalhadas; e, em um corte seco, esprema-se contra as poltronas por susto ou medo, aproximando a cabeça e cerrando os olhos. Paulo e Menino fazem com que  nossos corpos dancem entre emoções, enquanto estamos sentados. O medo e o conforto ficam girando ao nosso redor, é a mesma sensação de quando somos crianças e estamos sozinhas em casa, no fim do dia, esperando nossa responsável (na maioria das vezes nossa mãe) chegar do trabalho, mas a noite sempre chega primeiro.

Cena de forte tensão em que é feita a transição, entre o momento matinal de assistir desenhos na TV, e a programação que é interrompida pelo jornal sensacionalista. Foto do Estúdio Visão Periférica.

O conhecido provérbio africano “É preciso uma aldeia inteira para educar uma criança” nos ensina a importância de um pensar e agir coletivo, para a formação integral de uma criança. E o que são nossas “aldeias” hoje? No micro universo de Menino, seriam o lar, os familiares e a rede de cuidado; no macro, a escola, a polícia, o bairro.

Como estamos nos responsabilizando coletivamente por nossas crianças? A mãe do menino não pode chegar até sua festa - estava trabalhando na linha de produção de uma fábrica no polo industrial de Manaus. O irmão não estava em casa, o pai não é mencionado. No micro, nosso sujeito da história está envolvido em diversos conflitos familiares; no macro, sofre com questões do racismo estrutural. Entre as explosões, nesse caldeirão social, o corpo do ator precisa corresponder a um corpo que ferve, entre repreensões e suspiros de liberdade.

Além de sua vivência, Menino alarga essa história para outra criança, o José Renildo, amigo e responsável por ensinar-lhe passos de hip-hop. O fardamento, na cor branca, com detalhes em verde e amarelo, em alusão ao fardamento de escolas municipais de Manaus, deixa o corpo do ator e transforma-se em um terceiro corpo, o jovem de 12 anos, José Renildo, tornou-se mais uma notícia dos jornais sensacionalistas, morreu de overdose.

Cena na qual o ator utiliza um globo espelhado, projetando diversos pontos de luz no espaço que parece tornar-se infinito. Foto do Estúdio Visão Periférica.

A imagem inventada pelos jornais contrasta com a realidade vivenciada pelo Menino em seu bairro. A imagem de homens negros; e o afeto na imagem do tio, do amigo e do primo, vão sendo confrontados com a imposição midiática desses sujeitos, como inimigos da segurança pública; logo, não mais oferecem afeto e uma rede de proteção à criança, passam a ser inimigos do sistema.

Podemos dizer que “Menino” é uma obra que discute a necropolítica, vivenciada por corpos racializados, nas periferias de Manaus, sem abrir mão da poesia e enfrentando com seriedade as questões das infâncias. Em uma dramaturgia profunda, porém muito convidativa aos mergulhos por nossas memórias, o personagem nos provoca de um jeito infantil, dialogando diretamente com nossas crianças e nos convidando a conversar sobre relações amorosas, família, medo, abandono parental, condições precárias de trabalho, necropolítica, consumo de drogas, consumo de mídia racista e muitos mais. Não duvidemos da força e sabedoria de nossos mais novos.

Menino veio a este mundo, mostrando a importância de ouvirmos nossas infâncias, aquelas que fomos/somos, e as infâncias que estão no tempo presente, como caminho fundamental para construirmos novos mundos possíveis, para nossa próxima geração.

 

Finalizo este texto, como Menino encerra a sua festa, pergunto: Se o(a) seu (sua) menino(a) estivesse aqui, como ele(a) seria? O que você diria para ele (a)?

ASSISTA

bottom of page