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Mergulhar de olhos abertos

por Mavist

Texto publicado em 16 de abril de 2026
 

Espetáculo: Carvão 

 

Cia Sansacroma 

 

País: Brasil ( São Paulo - SP)

Período que assistiu o trabalho: julho de 2025

 

Local: SESC Consolação ( São Paulo_SP)

 

Período de estreia: 10 a 13 de julho de 2025

 

FICHA TÉCNICA

Direção Artística, Coreográfica e Concepção: Gal Martins

 

Assistência de Direção: Paula Salles

 

Intérpretes Criadores: Alma Luz Adélia, Bruno Novais, Lua Santana, Manuel Victor e Paula Salles

Direção e Performance Musical: Dani Lova

 

Preparação Corporal: Paula Salles e Gal Martins

 

Preparação Vocal: Klécio Miranda

 

Figurino e Visagismo: Gil Oliveira

 

Assistentes de Figurino: Adélia Santos e Luamim Martins

Projeto e Operação de Luz: Renato Lopes

 

Cenografia: Caio Marinho

 

Cenotécnica: Katiana Aleixo

 

Assistente de Cenotécnica: Tadeu Paiva

 

Orientação de Pesquisa: Bruno Novais e Gal Martins

Direção de Produção: Vanessa Soares – Movimentar Produções

 

Assistentes de Produção: Dani Lova e Sara Santana

 

Designer Gráfico: Bruno Marcitelli

Fotografia: Inspiração 6

 

Redes Sociais: Plataforma Dica Cultural Plural

 

Assessoria de Imprensa: Marrese Assessoria

 

Terapeuta Convidada: Adriana Camilo

 

Intérprete de Libras: Mirian Caxilé

Obra contemplada a partir do recurso do Programa de Ação Cultural (Proac-SP) e comprada em sua estreia pelo Sesc Consolação

“Nós não temos que amar, escolhemos amar.”

bell hooks

Assim que volto para casa, logo depois de apreciar a obra ‘Carvão’ da Cia Sansacroma, dirigida pela Gal Martins, abro “Tudo sobre amor: novas perspectivas”, lançada em 1999 pela autora bell hooks. Essa frase está grifada com marca-texto. Entre tantas frases marcadas, essa é a mais pulsante em mim, a partir de que tornar o amor em ação é também escolher/desejar amar, principalmente quando falamos de amor preto. Um amor que hoje temos urgência de dançar/mover, e é justamente o que a obra escurece as pessoas espectadoras.

O carvão que enuncia o nome da obra é trazido como um elemento de força daquilo que resiste até a maior temperatura, carvão que cria fumaça, que tinge a pele, mas que não pigmenta a água. Quando entramos no teatro, uma intérprete, no centro do palco, canta algumas murmurações, declamando em alguns momentos a palavra CAR-VÃO. A sua volta tem estruturas em formato de arco, que contém figuras adinkras que carregam um recipiente com alguns pedaços de carvão logo embaixo.

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Alma Luz no microfone no centro do palco, no Sesc Consolação com elenco original. Foto de Sidney Reis

Da mesma forma, sentada na plateia, imagino esses mesmos pedaços de carvão cobertos por fogo, criando cinza, enquanto soltam pequenas faíscas. Carvão, aquele que queima – e queima por horas –, suportando temperaturas ardentes, e ao mesmo tempo é frágil, a ponto de cair no chão e se despedaçar, tal como o amor por vezes tão efêmero. Assim que os intérpretes caminham e manipulam as estruturas, eles nos levam a acompanhar com os olhos movimentos que percorrem todo o  palco. Entre corpos que se encontram, lentos e súbitos, carregam marcas de feridas que ainda resistem na pele/no cabelo/nos músculos/na rigidez das escápulas ou em movimentos que se transformam em pequenas contrações e espasmos… Os intérpretes ora cedem, ora sustentam, quase que em um sopro, em um processo de repetição inerente, ou seja, uma repetição não acidental e sim estrutural. Assim como descrito no release essas feridas são “forjadas na chama do racismo, mas que alimentam o calor encontrado no amor que (re) existe”.

Contudo, quando a mandinga se instaura, é possível sentir o amor que é pulso de vida para cada um, ouvir os intérpretes contarem histórias, que perpassam os espectadores; e, assim, nos identificamos com as dores e os prazeres de um amor romântico, a partir de corpos pretos, que presenciam essas mesmas relações de perspectivas distintas, nas quais somos forçados a nos moldar, em concepções vindas de uma visão colonizadora e hegemônica de corpos. Se, entretanto, ultrapassamos esses moldes, percebemos outras possibilidades de amar, vindas de uma ancestralidade que atravessa continente. 

E é esse carvão que faz o pó subir, logo ume intérprete se coloca à frente do palco do lado direito, e pergunta: “Tem alguma pessoa preta que quer dar um depoimento de amor?” Logo que ouço, lembro das mulheres pretas da minha família, que partilharam comigo o amor, minha vó Arlinda, minha mãe Silvanete, minha tia Marisete e minha companheira Caroline, essas mulheres que cuidam de mim e que me ensinam as possibilidades de vida e existência.

Convite a plateia para escrever no tecido em cima do palco, no Sesc Consolação com elenco original. Foto de Sergio Fernandes 

Posteriormente recebemos o convite de escrever, com carvão, frases sobre/de amor, em um tecido cru. Logo depois, intérpretes se banham em uma cachoeira e lavam o tecido. A priori me questiono o porquê? Aquele ato de apagar as frases escritas no tecido me incomoda; e, ao mesmo tempo, me leva à reflexão. Acredito que seja esse o objetivo, criar tensão para fomentar a reflexão daquilo que ficou incômodo.

Entretanto, a partir de algumas informações fornecidas pelo grupo, descubro que essa mesma parte foi alterada, posteriormente, pelo elenco, com o intuito de o público compreender melhor o ato, sem molhar o tecido, na construção final da obra. Ainda assim, me questiono se foi o melhor caminho, porque aprecio o incômodo que causava. Apesar de toda obra abordar o amor preto e suas inquietações, a percepção que tenho é de que tensionar o público, com perguntas sem resposta, provoca e possibilita uma plateia mais ativa e reflexiva, que sai da obra e questiona o mundo da mesma forma como fomos questionados, ao assisti-la.

Logo, considerando que o carvão tem o intuito de purificar/filtrar a água – em seu funcionamento como elemento filtrante –, pode-se pensar essa ação como uma imagem de cura, quando intérpretes molham o tecido. Dessa forma, o ato se inverte: a água, que normalmente é filtrada pelo carvão, passa a ser filtrada por um processo de cura, instaurando um gesto de cuidado. Em uma obra que é atravessada por violências e feridas, mas também por formas de amar, esse ato ganha outra perspectiva: se, por tanto tempo, foram mãos pretas que sustentaram, acolheram e curaram, que agora sejam essas mesmas mãos envoltas em cuidado.

Desse modo, a obra “Carvão” nos faz refletir sobre os desafios do amor preto. Além disso, fala sobre aMar, aquele aMar que arrepia a pele e enrijece os músculos, formiga as pontas dos dedos e acelera o coração. “Carvão” fala sobre coragem que é se relacionar em um mundo que nos violenta todos os dias. “Carvão” beira e não resiste à profundidade de mergulhar de olhos abertos no amor. Daí, pergunto: ‘Como encontrar amor apesar da violência?’, ‘Como entreAmar?’.

Cena final em que o elenco toma banho embaixo de uma cachoeira, no Sesc Consolação com elenco original. Foto de Sergio Fernandes

ASSISTA:

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