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Quando as imagens tomam posição

Soraya Martins

Texto publicado em 26 de agosto de 2025
 

Espetáculo: Prelúdio a Ismael Ivo

evandro nunes e Anderson Feliciano

País de origem: Brasil (Belo Horizonte-MG)

Assistido em : 29 de junho de 2024

Evento: Festival Internacional de Teatro de Belo Horizonte FITBH 2024

Local: Funarte, Belo Horizonte-MG, Brasil

 

FICHA TÉCNICA

Concepção: Anderson Feliciano e evandro nunes

Direção: Anderson Feliciano

Performer/ator: evandro nunes

Trilha sonora: Marcos Mateus e evandro nunes

Concepção de figurino: Lira Ribas

Preparação corporal: Vic Alves

Concepção de luz: Tainá Rosa

Identidade visual: Aruanã de Oliveira e Acassio Filipe

Fotos/Vídeo: Pablo Bernardo

Performer selecionado: Camilo Gan

Assessoria de imprensa: Etiene Martins

Produção: Teatro Negro e Atitude

Financiamento: A obra “Prelúdio a Ismael Ivo” foi realizada com recursos da  Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte (MG).

Prelúdio a Ismael Ivo é uma obra que coloca em cena uma dramaturgia tessiturada nos voleios do corpo em movimento, designando uma orquestração de gestos, luzes, sons, ritmos, coreografia, espacialidade e silêncios. Uma dramaturgia, em que as imagens formam, do mesmo modo que a linguagem, superfícies de inscrição privilegiadas para processos fabulatórios sobre/ a partir dos corpos da negrura.

Em 2023, o dramaturgo e diretor, Anderson Feliciano, e o ator, arte-educador e pesquisador, evandro nunes, se aquilombam para dar a ver poéticas pretas implicadas em obliterar os regimes de representação e os registros de representatividade, acerca das pessoalidades negras. Se aquilombam como possiblidade outra de existir e se relacionar, de criar e recriar modos de habitar, ser e estar negro, em cena e no mundo.

 

Um aquilombamento para celebrar, junto-misturado, numa poética da relação, o dançarino e coreógrafo Ismael Ivo e os trinta anos de carreira de evandro nunes, um dos principais artistas dos teatros negros – teatro brasileiro – que se anuncia desde os Belos Horizontes.

A dupla celebração se dá de maneira fabular, pulsando na grandeza e na inventividade das trajetórias artísticas de Ivo e nunes. A fabulação, aqui, diz da criação de imagens para o pensamento: a corpoareidade de evandro cria imagens que saem da lógica representacional (não se quer representar algo ou alguém) para presentar, a partir de uma espécie de inventários de gestos vindos da poética de Ismael, uma coreodramaturgia comprometida, não com uma mimesis corpórea, mas antes em convocar um direito à opacidade dos e para os corpos pretos.

Prelúdio, como substantivo - passo inicial, peça introdutória de uma obra maior - anuncia, aos modos do filósofo Glissant, a não obrigação das gentes cor da noite se tornarem transparentes, para serem compreendidas (ou melhor, essencializadas e controladas). O jogo das imagens forjadas por evandro nunes recusa classificações e definições. Recusa deixar-se decifrar, propondo, assim, resistência ao imperativo da representação, tantas vezes uma forma de controle que deixa escapar a criação, em liberdades das poéticas pretas.

Em Prelúdio a Ismael Ivo há algo que permanece na neblina, aquela de Rosa. É essa ambiência, nada evidente, que Anderson junto a evandro, que junto a Ismael, parecem querer cultivar. Nessa bruma, cria-se a possibilidade de existir fora das estruturas normativas da visibilidade e inteligibilidade do olhar colonial.

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Apresentação de Prelúdio no FITBH 2024. Foto de Guto Muniz.

O direito à opacidade é invocado, desse modo, como distração das verdades absolutas e como condição de relacionalidade, que evidencia o surgimento de desejos. A artista e pesquisadora Jota Mombaça, no artigo “A plantação cognitiva”, ao discutir a captura/ o controle das imagens de pessoas negras e traçar uma possível estratégia para a não manutenção dessa posição sócio-histórica, estabelece um gesto performativo, entre o conceito de opacidade do filósofo da Martinica e a noção de quilombo/ato de aquilombar tecido por Anderson-evandro-Ivo, interessante para esta discussão:

Se, em opacidade, a diferença não pode ser consumida ou extraída,

talvez possamos criar uma ficção conceitual

em que “opaco” é uma das formas de dizer

“quilombo”

e assumir, assim, que a encruzilhada

da vida negra está situada

sobre

um labirinto de túneis que conduzem da

plantação cognitiva

à floresta e

da floresta ao

assentamento fugitivo.

Apresentação de Prelúdio no FITBH 2024. Foto de Guto Muniz.

É, nesse sentido, que Prelúdio a Ismael se presenta para o público como uma espécie de “assentamento de imagens fugitivas e opacas”, que dá a ver subjetividades, criadas na pulsão da diferença, como traço distintivo. Uma espécie de tempo-espaço em que as negruras existem, sem ser decifradas: “o rosto envolto por um fino tecido branco que se prolonga, como uma comprida cauda da nuca até o chão, o torso desnudo e o uso de estilizadas calças pretas de cintura alta moldam uma figura a um só tempo atraente e indecifrável”, nos sinaliza o crítico Guilherme Diniz.

Nos voleios do corpo, as imagens vão sendo montadas e recriadas: a musculatura, a escápula – que desempenha papel essencial na mobilidade dos ombros –, os gestos contidos, modelados no tempo da demora, sem pressa, são velados e desvelados pelas luzes da iluminadora Tainá Rosa. Na cena em sombras de Prelúdio, os gestos “inscritos na grafia do corpo em movimento” são tessituras e texturas revisionistas, semióticas e de produção semiótica implicados, tanto na elaboração de uma estética crítica-criativa, quanto na conexão inegociável entre corpo-experiência-coletividade-arte.

Apresentação de Prelúdio no FITBH 2024. Foto de Guto Muniz.

Ivo junto a Evandro, que junto a Anderson, parecem querer lançar essas imagens e o corpo negro de evandro como desejo que coreografa identidades passíveis e possíveis de serem imaginadas, num processo de concepção formal que tece camadas múltiplas do sujeito e aponta para epistemologias da cena que são produtoras de pensamentos, de infinitos e desejantes festa.

Prelúdio joga, assim, com a natureza deslizante das imagens, fissura a partir delas - imagens - a lógica de ver e significar as coisas inerentes às estruturas racistas, dentro e fora de cena. E pensa as corporeidades negras, como lugares de inscrição de saber; e, sobretudo, de transformações, ensejando modos de olhar, ver e sentir que induzem, simultaneamente, novas formas de subjetividade das pessoas negras e novas subjetividades políticas e estéticas.

 

Viva Ismael Ivo!

Viva evandro nunes!

Referências:

DINIZ, Guilherme. Prelúdio a Ismael Ivo - Preâmbulo a evandro nunes. In: Horizonte da Cena. Disponível em: Prelúdio a Ismael Ivo – Preâmbulo a evandro nunes . Acessado em 22 de agosto de 2025

MOMBAÇA, Jota. A plantação cognitiva. In: MASP Afterall. Disponível em: https://masp.org.br/uploads/temp/temp-QYyC0FPJZWoJ7Xs8Dgp6.pdf. Acessado em 22 de agosto 2025.

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