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Encontro com a Festa Kamba

por Deise de Brito

Texto publicado em 27 de agosto de 2026

Evento: 35º Festa Kamba “ Lázaro Vive”

 

Ballet Kamba Cuá de Lázaro Medina 

 

País: Paraguai ( Fernando de La Mora)

 

Período que viveu o evento:  03 de janeiro de 2026

 

Local: Em frente à Capela Maria Auxiliadora em Fernando de La Mora

FICHA TÉCNICA

Organização: Associação Grupo Tradicional Kamba Cuá 

 

Direção do Ballet Kamba Cuá de Lázaro Medina: Benito Medina 

 

A 35º  edição da Festa Kamba contou com o apoio da Prefeitura de Fernando de la Mora, do Fundo Nacional de Cultura e Artes (Fondec) e da Entidade Paraguaia de Artistas, Intérpretes ou Executantes (AIE Paraguay).

Este texto tem como cenário-referente a noite de 03 de janeiro de 2026, em Fernando de La Mora, região metropolitana de Assunção, capital do Paraguai; e local de acontecimento da 35ª edição da Festa Kamba – evento de celebração a São Baltazar: santo negro, considerado o protetor de pessoas negras, crianças e adolescentes,  que é devotado em muitas regiões da América do Sul. 

A Festa Kamba tem como mobilizadora central a comunidade negra e afro-paraguaia de Fernando de La Mora, cuja história é maniFESTADA em práticas cotidianas e celebrativas de transmissão.  Além disso, essa mesma existência comunitária já foi (e tem sido) sujeita de trabalhos acadêmicos, inclusive de pessoas investigadoras brasileiras, em programas brasileiros de pesquisas.

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Imagem de São Baltazar na 35ª edição da Festa Kamba. 03 de janeiro de 2026. Fernando de la Mora, Paraguai. Foto: Deise de Brito.

A minha chegada à Festa Kamba, em 2026, tem raiz em julho de 2022, quando, pela primeira vez, visitei o Paraguai. Na época minhas motivações para conhecer o país eram as narrativas acerca da Guerra do Paraguai (1864-1870), estudadas nas aulas de história na escola. Desde a adolescência, sempre me chamou a atenção o fato de que antes do conflito, esse país era um dos territórios sulamericanos mais avançados em termos de erradicação do analfabetismo, em meados do século XIX,  além de ter se destacado, nesse mesmo período, pela implantação de uma indústria autônoma e competitiva. No entanto, a guerra, ou melhor, a tríplice cruel aliança entre Brasil, Argentina e Uruguai - consequentemente a derrota para esses três países - teria impulsionado um estado de declínio social no Paraguai, que teve praticamente boa parte da população masculina exterminada. É importante considerar que, tanto no panorama anterior ou durante a guerra, o Paraguai era um país escravocrata. 

Flyer de divulgação da 35ª edição da Festa Kamba. Fonte: rede social do Ballet Kamba Cuá.

Assim, antes da primeira visita, uma interrogação já tinha me ocupado: já que o Paraguai tinha sido um país com o histórico terrível da escravidão, em relação a populações africanas, por que as pessoas negras paraguaias não estavam nos diagramas da minha imaginação? Sabia de informações, a respeito da população originária, em particular o povo Guarani, mas nada no meu imaginário abrigava assuntos referentes à população negra. Assim, fui para a base de dados acadêmicos e tive acesso à dissertação  “O grupo tradicional Kamba Cuá” no movimento afroparaguaio: Artes Performáticas, política identitária e territorialidade, escrita e defendida por Cristhiano Kolinski da Silva, no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

A partir desta dissertação cheguei à rede social de Bárbara Medina, artista e ativista da comunidade Kamba Kuá 1, que me recebeu em sua casa, junto ao seu tio Benito Medina, em Fernando de Lamora, para uma manhã de conversa e troca, bastante especiais, acompanhada de chá mate. Nessa ocasião, ambos me contaram detalhes sobre a Festa Kamba  e, desde então, pulsou uma vontade de conhecer o evento.

Vale ressaltar que, em julho 2025, O Arquivos de Okan teve a oportunidade de  articular a vinda de  Bárbara Medina para o 2º Arquivos de si (nós): entre poéticas cênicas e memórias de Abya Yala – no Centro de Pesquisa e Formação do SESC São Paulo; além de ter articulado a oficina Kamba Cuá Afroparaguaio,  realizada pela artista, no Projeto Muntu, do Centro de Referência da Dança, nessa mesma cidade.

Lembro que, no 2º Arquivos de si (nós), na mesa Com quais arquivos e arquivistas aprendi, Bárbara compartilhou como foi o processo oral de aprendizagem, a respeito da história da sua comunidade, aprendizado que tem  seu avô, Don Santiago Medina, como o Mestre responsável por recuperar e continuar gestos, movimentos e reaparições sonoras-percussivas. Documentalidades em movimento que maniFESTA parte da identidade e do pertencimento afro-referenciado de um território.

A Festa Kamba de 2026, que aconteceu em um terreno em frente à Capela Maria Auxiliadora, reuniu vários grupos artísticos, que festejaram noite adentro, através de apresentações musicais e dançantes. Performatividades que se conectavam com o público presente que parecia ser, em grande parte,  residente da região paraguaia.

Apresentaram-se artistas, com características diversas, que dialogavam com ritmos populares considerados “de raiz”, como Tania Duarte y Dos Raíces,  e com performatividades tradicionais, como o grupo Pardos Libres de Emboscada,  outra cidade paraguaia com presença da população negra.

Apesar de nem todos os coletivos artísticos terem apresentado trabalhos afrorreferenciados, a festa me pareceu ser uma espécie de coleção dinâmica, em que várias atitudes criativas, no palco, arquivavam movimentos memorialísticos sobre insistência, presença e obstinação em continuar existindo, num país que só reconheceu, oficialmente, a população afro-paraguaia, em 2015. A resiliência em manter a celebração, que estava em sua trigésima quinta edição, e outras ações, como a aplicação do primeiro censo populacional afro-paraguaio, ocorrido entre 2006 e 2007, pressionaram o governo para essa atitude de reconhecimento.

Imagem do Ballet Kamba Cuá de Lázaro Medina na 34ª edição da Festa Kamba. 2025. Fonte: arquivo do Ballet Kamba Cuá.

Por isso nota-se que este ato não é um gesto de benevolência ou generosidade, por parte do estado paraguaio. Pelo contrário, foram necessários enfrentamentos, negociações e paciência, por parte da comunidade, para lográ-lo.  A ativa preocupação de cultivar, de forma intergeracional, modos de dançar, tocar e brincar, traduz, de certa maneira, esse legado de persistência. Lázaro Medina, uma das lideranças do movimento negro paraguaio, nascido e criado na comunidade Kamba Kuá, falecido em 04 de março de 2013, foi um agente de extrema importância nesse contexto. Tanto que o grupo, que era dirigido e  liderado por ele, recebe o seu nome prestando-lhe homenagem póstuma  - Ballet Kamba Cuá de Lázaro Medina.

Um público de várias idades estava na Festa Kamba. Havia cadeiras para as pessoas se sentarem e uma distância relativamente grande entre palco e plateia.  Por um lado, esse espaço garantia a ocupação descontraída das crianças, que estavam na festa como audiência ou como componentes de coletivos que iam se apresentar. Elas, com pernas e olhos atentos,  assistiam às pessoas adultas que dançavam no palco e algumas repetiam as movimentações que apreciavam. Por outro lado, a larga distância entre palco e plateia pareceu-me acanhar o público em certos momentos. Algumas pessoas, vez e outra, se levantavam dos seus assentos para comprar bebidas e comidas, em barracas concentradas ao fundo do terreno onde ocorria o evento, ou para dançar umas com as outras.

No entanto, quando o Ballet Kamba Cuá iniciou seu cortejo até o palco, dei-me conta sobre  o quanto aquele momento era o mais esperado da noite. Boa parte do público levantou-se para ver o grupo que já aparecia, mesmo distante,  com cem casais de dança; algumas pessoas segurando tochas de fogo; outras, bandeiras; outras tocando tambores.  Eram integrantes de variadas idades, que vestiam roupas com cores em amarelo, branco e vermelho e  dançavam ao som da percussão. Quatro delas seguravam o andor, sobre o qual estava São Baltazar. E, enquanto elas performavam a caminhada dançante até o palco, o mestre de cerimônia, Alcides Villasboa, contava um pouco dos aspectos do bailado.

Senti que apresentação do Kamba Cuá era o ápice da noite, mesmo não sendo a última atração, não apenas pela sua devoção a São Baltazar, mas também pela sua construção performativa que compreende dança de pares. As pessoas peformers ficam em semicírculo, e continuamente casais, segundo uma configuração cisgênera e heteronormativa, vão se revezando no centro do palco. As mulheres executam movimentos que têm como respaldo a mobilidade do quadril, cujo remexer reverbera no balanço da saia com babados. 

Os homens se destacam pelo cortejamento às danças das mulheres e pela dinâmica do abaixar-se-levantar-se do corpo, usando as articulações de braços e pernas, para imprimir comicidade e descontração às suas performances. Lembrou-me muito as atuações dos sambadores, no Samba de Roda do Recôncavo Baiano, e os movimentos do El Gramillero, personagem mítico e curandeiro das comparsas de Candombe, que vi em Montevidéu no Uruguai. Cada par envolve circuitos corporais que implicam corpos sem linha reta e presenças curvas que transformam o quadril em um agente protagonista da execução.

Bárbara Medina (ao lado de São Baltazar) e eu na 35ª edição da Festa Kamba. Fernando de la Mora, Paraguai. Foto: Deise de Brito.

Como elo, o Kamba Cuá conecta a louvação a São Baltazar ao ato de balançar o quadril desconhecendo e dinamitando as dicotomias corporais, permeadas pela divisão sagrado versus profano. Isso me reconecta à vontade de elaborar a respeito de como os códigos e as gramáticas do movimento dessa aparição celebrativa foram organizados, nomeados e ensinados. 

Desconfio que aquele jeito de o corpo dançar, acionando dobras ou articulações de maneira semelhante a outras maniFESTAções negras da América do Sul, pode referir-se a portais de ampliação para o entendimento de outras histórias da comunidade negra de Fernando de La Mora e suas continuadas existências.

São Baltazar era um homem negro, um dos três reis magos que visitou o menino Jesus Cristo, que acabara de nascer, presenteando-lhe com mirra. Assim como o santo ofertou a mirra para o nascimento que simbolizava esperança, a renovação narrativa é o grande presente que o Ballet Kamba Cuá nos oferece.  O grupo, com a dança e a organização da Festa Kamba,  incentiva-nos a perguntar sobre o entre a aparição e a desaparição histórica, despertando formulações da memória ainda não perspectivadas, para continuar articulando muitas histórias afrodescendentes de Fernando de La Mora, a cada toque no tambor e a cada gesto dobrado com e para o quadril.

Quer saber mais sobre as culturas afroparaguaias? 

 

Visite: 

@balletkambacua_lazaromedina

@kambaite_medina

Consulte : 

“O grupo tradicional Kamba Cuá” no movimento afroparaguaio: Artes Performáticas, política identitária e territorialidade de Cristhiano Kolinski da Silva. Disponível no repositório da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. 

A construção do “Dia da cultura afroparaguaia” - Memória(s) e Identidade(s) no Paraguai de Kelly Aparecida Costa. Disponível em A Construção do “Dia da Cultura Afroparaguaia”: Memória(s) e Identidade(s) no Paraguai . Acesso em 25 de agosto de 2026.

Termo guarani que significa “lugar onde vivem muitas pessoas negras”. Na tradução literal, Kamba significa “pessoa de pele negra” e Kuá significa “buraco”.

Âncora 1
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