Fora da curva?
Somos a própria Curva.
por Deise de Brito
Texto publicado em 20 de maio de 2026
Evento: Cura – Mostra de Artes Cênicas Negras
Várias pessoas artistas, performers e pesquisadores do Brasil e outros territórios da diáspora.
País: Brasil (Pelotas | Porto Alegre– Rio Grande do Sul)
Período que viveu o evento: 13 a 20 de novembro de 2025
Período do evento: 10 a 20 de novembro de 2025
FICHA TÉCNICA
Idealização: Silvia Duarte e Thiago Pirajira
Direção artística e curadoria: Thiago Pirajira
Coordenação de produção: Juliano Barros
Produção Pelotas: Anderson Silveira, Biba Manicongo, Tuanny Mascarenhas
Produção Porto Alegre: Juliano Barros, Kayla Calisto, Thamires Gambôa
Coordenação técnica: Thaís Andrade
Identidade visual e site: Aline Gonçalves
Redes sociais: Sofia Alonso e Preta Tu Comunicação
Assessoria de Imprensa: Bebê Baumgarten
Cobertura fotográfica: Luis Gonçalves (Pelotas) e Josemar Afrovulto (Porto Alegre)
Vídeos: Thiago Lazeri
Trilha teaser: Wagner Menezes
Libras: Juliana Tavares (Porto Alegre) e Thayssa Nunes (Pelotas)
Alimentação: DLB e Cooperativa Teia Ecológica
Gestão financeira: Anne Borges
Assessoria contábil: Escritório Icle Ltda
Assessoria jurídica: Virgínia Icle
Passagens e hospedagens: Juliana Carvalho
Co-realização e pesquisa: NUPRA - Núcleo de Práticas Radicais UFPel
Gestão de projeto: UTA Produções
A Cura – Mostra de Artes Cênicas Negras 2025 foi realizada com recursos federais da Lei Aldir Blanc e contou com apoio da Casa de Cultura Mario Quintana, SESC-RS, Ieacen, Fundação Teatro São Pedro, Associação dos amigos do Theatro São Pedro, Secult Pelotas, Secretaria Municipal de Cultura de Porto Alegre, Cinemateca Paulo Amorim.
A Cura – Mostra de Artes Cênicas Negras - mobilizou sua 3a edição, em 2025. Articulada em 2020, durante o período pandêmico, com idealização de Silvia Duarte e Thiago Pirajira, a proposta comunga com a premissa de apresentar e promover diálogos, entre as diferentes faces da pluralidade artística negra, não somente do Rio Grande do Sul – Estado onde ela ocorre, como também de outras territorialidades afro-negras-diaspóricas. Entre 10 e 20 de novembro, o evento conectou artistas, performers, curadores, escritores e pesquisadores. Ele foi ponte de públicos entre palco e rua, mercado e museu aberto, conversa e festa, além de uma cidade e outra: Pelotas e Porto Alegre.
Acompanhei a programação, a partir de 13 de novembro, convicta de um não saber a saber, organizada por um convite em tempo, contra a ordem de um certo imaginário, que inventa levianamente a ausência de culturas negras gaúchas; no entanto, sempre seremos Deslocamentos, veia tema da curadoria do ano passado, para sublinhar os devires criativos negros nas artes cênicas.
A programação do festival, ocorreu simultaneamente em – e entre – Pelotas e Porto Alegre, grifando que movimento é constituição e constituinte de conhecimento: agência e fundamento das africanidades que continuam a corazonar as presenças afrodiaspóricas.
Obras e performances em diferentes estágios de maturidade, circulações e apresentações na rua e no palco que proporcionavam ativação e exercício de intimidade, com públicos de artistas e de não artistas e entre essas pessoas. E, no caminho, e/ou para caminhos, um aspecto imersivo inerente a muitos trabalhos, como nas inquietudes afrotranstópicas de Mário Lopes (SP) no Movimento I, parado é suspeito do projeto Afrotranstopia (SP); e nas sensações desérticas e, ao mesmo tempo, aquíferas despertadas por Igba Awo de Nina Fola (RS). Senti, também, a passagem ocupada por aparições sincopadas contidas em Cordão, de Malu Avelar (MG/SP). E preocupei-me com a dificuldade de tradução estética de ideia em Molha do grupo Espiralar Encruza (RS). Houve o ponto-elo Danúbio (DF), espetáculo curado coletivamente por curadorias de três festivais que se aquilombaram – Dona Ruth: Festival de Teatro Negro de São Paulo (SP), Festival de Dança Itacaré ( BA) e a Cura (RS). Para abordar algumas das variadas esquinas que a mostra ofereceu em sua trilha.

Encontro das curadorias dos festivais em aquilombamento com a equipe de Danúbio, após a apresentação da obra no Galpão Floresta Cultural, em 14 de novembro de 2025, em Porto Alegre. Da direita para a esquerda: Thiago Pirajira (Mostra Cura), Kaleb Lizian (Danúbio), Gabriel Cândido (Dona Ruth), Soraya Martins (Dona Ruth), Verusya Correia (Festival de Dança Itacaré), Jonathan Andrade (Danúbio), Malik Gomes (Danúbio), e Auana Borém ( Danúbio).
Ocorreram, ainda, conversas públicas, exibições audiovisuais, residências e experiências performáticas, como a do Relaxamento Afro, deslocando meus diagramas imagéticos dos produtos cosméticos de alisamento, direcionados a cabelos crespos, para a necessidade de normalizarmos o direito negro ao ócio e ao descanso, sem autoflagelação. Já tinha conhecido esse trabalho na exposição “Dos Brasis – Arte e Pensamento Negro”, no Sesc Belenzinho, em 2023, na cidade de São Paulo, e vivenciá-lo na mostra foi compreender a noção de repouso, na proposição de Silvana Rodrigues (RS), próximo de uma maneira mais incorporada.
Sinto que Thiago Pirajira, diretor e curador do festival, teve preocupação didática generosa, ao colocar a vivência “Percurso Territórios Negros”, entre as instâncias de performance e artísticas. A atividade, orientada por Daniele Vieira, consiste numa partilha pela pesquisadora de informações e narrativas a respeito das histórias e presenças negras de Porto Alegre. Na rota deste Museu Aberto de Percurso Negro, fui apresentada à nascente do movimento pelo 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra, e a intelectuais como o poeta Oliveira Silveira (1941–2009), tudo enquanto caminhávamos pelo centro da cidade. E, não seria o caminho o urdimento que sustenta a coragem para nos curar? Andando, e parando, quando precisamos?

Apresentação de Cordão, com Malu Avelar, na Travessa Cataventos da Casa de Cultura Mário Quintana, em Porto Alegre, no dia 13 de novembro de 2025. Foto de Deise de Brito.
Uma outra nuance presente foi a festa. Até um tempo atrás, diria que ela é uma tecnologia, mas creio que a Cura me bordou que ela é e precisa continuar a ser o nosso chão particular, pois empenha encontros para a possibilidade já que imagináveis somos, quando dançamos e rimos juntes, mesmo quando discutimos assuntos sérios, entoando que “Alegria é o estado de afinação com o mundo” 2, como disse Muniz Sodré. Não me canso de repetir essa frase, nos meus textos; e quanto mais eu me desloco na diáspora, especialmente em Abya Yala, mais ela me encontra.
A diversidade da programação foi um elemento protagonista , mas as festas... essas foram rainhas. Elas estavam abrigadas em qualquer direção, por exemplo, nas Vozes de Dandara (Claúdia Quadros, Guaira Soares e Preta Guedes), ou na Kiki Ball da Cura, que se baseou em aspectos das culturas negras brasileiras para tematizar uma ball, incluindo orientações explicativas acerca das categorias.

Apresentação de Igba Awo, com Nina Fola, no Largo do Bola da Universidade Federal de Pelotas, em Pelotas, no dia 18 de novembro de 2025. Foto de Deise de Brito.
Porém o festival não foi apenas sobre os diferentes modos de como fazemos cena ou como compreendemos celebração, pertencimento, descanso, desfiles e performatividades, ele também precisou ser espaço para conversar sobre demandas complicadas. No “ABRE-ALAS: festivais em aquilombamento”, gira de conversa que aconteceu igualmente nas últimas edições do Dona Ruth e no Festival de Dança Itacaré, com participação das curadorias dos três eventos - Thiago Pirajira (RS), Gabriel Cândido (SP), Soraya Martins(MG/PR) e Verusya Correia (BA) - além das presenças de Gabriela Munhoz (RS), Carina Monteiro (RS) e Aline Mohamad (SP) representando instituições, a pauta foi sobre as ameaças de não ocorrência das próximas edições de festivais de artes cênicas negros por causa de apoios e financiamentos impermanentes.
Nesse contexto, Gabriel Cândido compartilhou uma percepção :
A mostra Cura não pode ser fruto da emergência de uma pandemia ou da emergência das enchentes. A mostra Cura precisa ser de fato um festival que tenha permanência na agenda cultural de Porto Alegre e também de Pelotas.
Porque a Cura, assim como outros encontros correlatos, a exemplo do Dona Ruth e o de Dança de Itacaré, continuam a criar alicerces precisos para o que se poderia chamar de recusa a uma estaticidade criativa e a redução de formas, ao apresentar em suas programações agências cênicas negras em diferença e relação, cujas pessoas agentes são organismos vitais dos fazeres cênicos do país. Já que não somos crias de sabenças fora da curva, mas sim somos a própria curva, gerada por constelações de conhecimento que reverenciam a mudança na continuidade. Inspiramos as dobras para manter a expiração em desvios. E o que seria da arte sem eles (nós) ?
1 Samba-Enredo 2026 da G.R.E.S. Portela - O Mistério do Príncipe do Bará - a Oração do Negrinho e a Ressurreição de Sua Coroa Sob o Céu Aberto do Rio Grande, composição de Val Tinho Botafogo, Raphael Gravino, Gabriel Simões, Braga, Cacau Oliveira, Miguel Cunha e Dona Madalena.
2 O professor Muniz Sodré disse essa frase na sua palestra para a abertura do II Festejo: Raízes do Riso, em 05 de março de 2021. O título da palestra foi “ Alegria é Regência”, aconteceu no canal do youtube do Terreiros Riso (coletivo promotor do evento) e teve a mediação da artista, palhaça e pesquisadora Vanessa Rosa.
