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MURTA: entre  a trama, o balaio e a terra preta.

por Deise de Brito

Texto publicado em 29 de junho de 2026

Espetáculo: MURTA -  As mulheres que habitam em mim

 

Ester Lopes 

 

País: Brasil ( São Bernardo do Campo – SP)

 

Período em que assistiu o trabalho: 31 de janeiro de 2025

 

Local: Centro de Referência da Dança da cidade de São Paulo

Período de estreia: 2019

 

FICHA TÉCNICA

Direção, Criação e Interpretação: Ester Lopes 

Produção Executiva: Will Lima

 

Produção Artística: Priscila Parajara

 

Iluminação: Edu Cabral

 

Figurino: Marca Todes 

 

Trilha Sonora: Rogério Martins,  Esdras Oliveira e Rodrigo Hara

 

A obra Murta foi criada com recursos próprios da artista Ester Lopes e dentro da Residência: Ateliê de Solos na Oficina Cultural Oswald de Andrade, com provocação cênica de Beth Bastos. A apresentação realizada em janeiro de 2025, no Centro de Referência da Dança da Cidade de São Paulo, foi contratada pela Secretaria Municipal de Cultura da Cidade de São Paulo.

“Estou me dando o privilégio de ser eu mesma”

 

Ester Lopes

A artista do corpo, do ABC Paulista, Ester Lopes, pronunciou essa frase durante o bate-papo com o público que a apreciou em MURTA - As mulheres que habitam em mim. Solo apresentado no Centro de Referência da Dança da cidade  de São Paulo, em janeiro de 2025. A conversa foi mediada por Gustav Coubert também profissional das artes e, naquela ocasião, articuladora cultural do Projeto Muntu que é, até então, o responsável pela coordenação pedagógica daquele espaço, se destacando pela íntegra atuação nesse equipamento público tão importante para as pluralidades da linguagem da dança do território paulistano. 

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Ester Lopes no solo MURTA. Centro de Referência da Dança da cidade de São Paulo. Janeiro de 2025.  Foto de Dayse Serena.

A sentença de Esther não pode ser despercebida nessa escrita. Alguns dirão que ela parece redundante ou pode soar não necessária, porém re-pare e se alongue para os espaços entre as palavras que compõem essa anunciação. Liberte-se para o que está implícito. Há muita coragem nessa elaboração e, mais do que isso, existe demasiada audácia em “ ser eu mesma”. No mundo onde as presenças estão cada vez mais desconectadas de si, para se umbilicarem ao ALGO(fora do)RITMO ou onde a mulheridade, em toda sua diversidade de ser, está em risco por arriscar ser feliz, “ser eu mesma” não é um quase slogan de efeito e, sim, uma decisão. É o corpo que se escuta, ao se orgulhar dos próprios arrepios. É a anatomia que se respeita, integrada ao que lhe dá prazer e gozo. É a existência que se celebra e se transparece.

Ademais é  a presença que sabe, depois de muitas visceralidades, que o Ara 1 é o lugar para o qual não se pode contar mentiras. A gente pode até insistir em fazê-lo, no entanto – mais  cedo ou mais tarde – ele nos aciona para uma prosa incisiva, depois de vários avisos de alerta. “Ser eu mesma” é o exercício que Ester está presenteando para si, e há algo de iluminável nisso, no mínimo. E eu poderia escrever também revolucionável. 

Ester Lopes no solo MURTA. Centro de Referência da Dança da cidade de São Paulo. Janeiro de  2025.  Foto de Dayse Serena. 

Lopes movimenta outra frase  bem forte e impetuosa, “E eu não sou uma mulher?”, de Sojourner Truth (1797-1883), ativista e pregadora cristã estadunidense. No caminho negro-feminista de Truth, a artista reúne materialidades que parecem ter sido escolhidas com propósito, além dos desenhos que o seu corpo faz no espaço: a terra preta, um grande balaio feito de palha, uma peneira, a trama-costura da parte superior do figurino, a trilha sonora agridoce e a composição de luz que, nos cinco minutos iniciais da coreografia, debuxa uma ambiência com fragmentos. 

O prólogo da composição, que acontece fora da sala de apresentação, impacta a audiência pelos sons de um corpo murmurado, que insiste em sair de uma espécie de masmorra interna. O balaio parece ser um tipo de cobertor no rosto de Ester, mas não o é. Sensorialmente, é face rasurada pela trama realizada com palha, que possibilita à dançarina ocupar várias de suas complexas versões. A trança do cesto é  alternativa e não uma determinação; e isso, junto à vocalidade, eleva ao topo do vulcão a primeira aparição do trabalho. E nós, na verdade eu, fomos ao cume juntas. Lá eu queria permanecer. 

Já dentro do espaço cênico, continua uma dança que busca acasalamentos sutis, entre os tons terrosos quentes do figurino, um tronco-quadril que se narra pela curva e a face-balaio. Movimentos agilizados por dobradiças corporais (joelhos, tornozelos, cotovelos), que evocam outras maneiras de habitar, para criar espacialidades que digam sua existência.

Porém a criadora remove a cesta do rosto, para atrelar-se à terra preta que está no palco e peneirar suas imagens-memórias familiares. Nessa ação, deslizo bruscamente do cume vulcânico, enquanto ela escava a terra, realiza um círculo com esta matéria e  a espalha como se hidratasse o próprio corpo com ela. “Ser eu mesma” compreende uma subversão, mas também revela uma urgência; e urgir pode criar pressas que não acolhem a dilatação de um tempoespaço que precisa acontecer num contra-fluxo da emergência. 

Nesse caminho, a coreografia descaminha por algumas movências, ao recorrer a códigos conhecidos,  que despertam sensação de não situar o que Ester parece desejar comunicar: a queda de rim da capoeira, os passos de ijexá, os pés do samba. Não que esses movimentos não possam acontecer, pelo contrário, o aspecto tensionado aqui é como eles estão no trabalho. Numa composição coreográfica que convoca o não controle do “eu sou”, as agências de movimento precisam ser convidadas e não pressionadas a estar. O corpo precisa ter paciência.

Ester Lopes no solo MURTA. Centro de Referência da Dança da cidade de São Paulo. Janeiro de  2025.  Foto de Dayse Serena.

Ester também desiste das vocalidades iniciais para convocar textos que nomeiam partes e gente importante do seu percurso - as mulheres da sua família, avôs e avós, explicitando a necessidade legítima de compartilhar as identidades das muitas pessoas que lhe residem. No entanto, ainda pulso com inquietações: por que dizer tanto pela palavra, se verbalizado o corpo já é e pode, multiplicadamente, nomear?  

Ela retorna o balaio ao rosto e o retira novamente; interroga memórias afetivas para algumas pessoas do público e encerra seu ciclo coreográfico sentada na plateia. De lá, ela  performa o último gesto da pintura que acabou de dançar. Aprecia tudo e todes que a teceram, que a educaram na esperança pela vida, que a organizaram, implicitamente, para ser uma pessoa que agora apenas anseia ser ela mesma. Ela aplaude aquelas que nela moram e estão.  E eu volto para o cume do vulcão, pela segunda vez, para dar longos abraços também nas minhas rainhas. Elas araram. Nós plantamos.  E as próximas continuarão a colher para sermos nós mesmas. 

Ester Lopes no solo MURTA. Centro de Referência da Dança da cidade de São Paulo. Janeiro de 2025.  Foto de Dayse Serena. 

Ara significa corpo na cultura africana Iorubá.

Âncora 1
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