Núcleo de Pesquisa em Performatividades Negras
Fernando Hermógenes
Projeto: Núcleo de Pesquisa em Performatividades Negras
País : Brasil ( Belo Horizonte - MG)
Quando: 17 de setembro a 10 de dezembro de 2022
Local: Galpão Cine Horto, Belo Horizonte-MG - Brasil
Propositor: Anderson Feliciano
Participantes do Núcleo 2022:
Arthur Moura Campos
Bárbara Andrade
Briieno
Caru
Cida Reis
Danielle dos Anjos
Fernando Hermógenes
Giovani
Júlio Souza
Laura Capeles
Marlon Vital
Massuelen Cristina
Moisés Navarro
Nayara Leite
Ray Ariana
Victor Alves
Zerê
O Núcleo de Performatividades Negras é uma iniciativa do “Galpão Cine Horto” oferecida gratuitamente via Lei Federal de Incentivo à Cultura e Lei Municipal de Incentivo à Cultura de Belo Horizonte. O “Galpão Cine Horto” é um centro cultural, criado pelo Grupo Galpão, na cidade de Belo Horizonte, em 1998. Para mais informações, acesse: https://galpaocinehorto.com.br/
Fazia um tempo que eu não via o Anderson Feliciano. Arrisco dizer que nosso último rolê juntos foi um curso em 2017, em Belo Horizonte. Quando vi a chamada do “Galpão Cine Horto” para o Núcleo de Pesquisas em Performatividades Negras, com a coordenação dele, eu fiz minha inscrição imediatamente, animado com a alegria do reencontro e a beleza de viver a proposta de um artista que, desde que o conheci, tornou-se referência para mim.
A primeira turma do Núcleo de Pesquisa em Performatividades Negras teve início em 17 de setembro de 2022, um sábado, o sábado das aberturas de caminhos, cheganças, artistas, pensadoras, provocadoras, pessoas pretas entrando, olhos nos olhos, nomes, afetos, e-mails, materiais, acordos. Entre setembro e dezembro, percorremos o caminho aberto e edificado por artistas pretes contemporâneas, apresentados generosamente pelo Anderson. O Núcleo partiu da noção de corpografia proposta pelo poeta Ricardo Aleixo e, a cada sábado, éramos convidados a pensar, conversar, experimentar e propor diante de obras em variadas linguagens produzidas por artistas negras, numa dinâmica que oportuniza o debate e a troca de ideias e impressões, tanto imediatamente, quanto esticadas no tempo.
Abertura do Núcleo de Pesquisa em Performatividades Negras, 17 de setembro de 2022. Assistimos ao documentário “Ateliê do Artista: Eustáquio Neves”, produzido pela Revista Bravo! Registro de Fernando Hermógenes.
O Núcleo teve muitos formatos: não foi somente uma coisa ou outra, mas sim a mistura (ou tropeço?) de várias configurações de encontro e produção que movimentou aquele corpo de artistas ao longo dos quatro meses: penso no Núcleo principalmente como residência artística, pela profundidade com a qual ocupamos e impregnamos o Galpão com nossas presenças, intervenções e inquietações, além do compromisso que nos aproximava, mais e mais, a cada sábado. O Núcleo foi também exposição, ensaio, show, aula, lançamento de livro, seminário, gastronomia, excursão, dever de casa, produção de portfólio, crítica de arte, exibição de documentário, comédia e tantas outras vivências. E foi REDE – gente levantando e afirmando e colaborando com gente. Gentes-artistes. Gentes das artchys. Gentes que enfrentam um sem-número de dificuldades, ao pesquisar e produzir arte no abraço do cistema de arte dAqui – e, especialmente, quando é movido por pessoas pretas, desejosas de muitos fazeres e referências e visualidades, e não apenas aquelas orientadas pelo mercado/circuito.
Anderson apresenta o Caderno de Processos – uma guiança para os nossos encontros até o encerramento, em dezembro de 2022, com uma mostra no Galpão Cine Horto. Registro de Fernando Hermógenes
De maneira respeitosa, verdadeiramente aberta às diversidades, fomos nos conhecendo e nos apaixonando – criamos conexões entre o que produzíamos, compreendendo os nossos interesses e angústias no fazer artístico. Na sala de cinema do “Galpão Cine Horto”, conheci o trabalho da Nayara Leite, que certo sábado trouxe as catracas dos ônibus pra roda, apontando o desprazer de pegar tantos ônibus (passagens caras, em veículos em péssimo estado) pra se locomover na Região Metropolitana de Belo Horizonte, e num outro estávamos assistindo, o Núcleo todo, a leitura da dramaturgia Receita, de sua criação. Reencontrei Massuelen Cristina, que nos conduziu, o Núcleo todo, numa imersão pela sua exposição individual em Belo Horizonte e, também, pela vida dela, ensinando-nos uma poderosa receita de café. Pela primeira vez, contemplei Ricardo Aleixo compartilhando sabedoria conosco, uma tarde inteira, com o Núcleo todo. Conversamos inspirados pelos portfólios, performances, danças, textos e artivismos de Val Souza, Rui Moreira, Eustáquio Neves, James Baldwin, Saidiya Hartman, Evandro Nunes, Leda Maria Martins, Édouard Glissant e muitos outros.
E tinha o bar – ah, o bar! Após os encontros no “Galpão”, encerrados com muita dificuldade (quem queria sair dali?), era pro bar que a gente seguia de corpo e alma, pra conversar mais, pra debater, performar, rir, inventar mais e mais mundos. Noites deliciosas com Arthur, Bárbara, Cida, Mariana, Marlon, Moisés, Ray, Victor, Caru, Tayná, Giovani e quem mais chegava contagiado pela nossa alegria, presença e felicidade. O bar era uma extensão dos nossos assuntos na sala, e dali visitávamos outras instâncias da vida, e mais outras e outras, dando até as bordas da madrugada – e fechando com apresentações teatrais, exposições, rodas de samba, aniversários e micro residências artísticas.
Exercícios ao longo do Núcleo – gestos, histórias, palavras, desejos, tentativas compartilhadas. Registro de Fernando Hermógenes.
Pensar e gerir um núcleo de pessoas artistas pretes em Belo Horizonte, atravessando a estrutura do “Galpão Cine Horto”, durante 4 meses, acolhendo artistas da região metropolitana e também do interior do Estado, com muitas propostas, acervo e conteúdo de poderosíssima qualidade pra compartilhar e deixar reverberar no povo – eita! Anderson sempre expôs, abertamente, seu desejo em fazer daqueles encontros um espaço de segurança para nossas manifestações, ideias, vontades e críticas, uma vez que, geralmente, não a encontramos nos espaços institucionalizados de arte, como artistas pretes. Nesta direção, a “arte” mais importante que vi executada ali, e a que mais me interessa apontar, é a chamada para construir, dentro do presente cistema de coisas, uma percepção outra, inimiga destas que trabalham contra os sonhos, a ascensão, a dignidade, o devido reconhecimento e a longa vida de pessoas-artistas pretas. Ainda que num nível micro, ainda que pareça quieta, talvez lenta, mas que exatamente por tais características consegue crescer forte e reparar, no processo, qualquer trinca que apareça no conjunto. Uma chamada que se faz pelo conhecimento unido com a presença colaborativa, e não apenas pelo ativismo ou pela virtualidade.
Não se trata de um movimento no Instagram, e sim na vida, no cotidiano e nos tropeços que cada uma de nós dá.
Neste momento, temos, portanto, o desafio da sustentabilidade da rede, a manutenção dos nossos afetos e esquemas, enquanto habitamos estruturas que nos odeiam e decidiram nos enfraquecer, desaparecer conosco. Modos de vida que separam pessoas e impedem os encontros e vínculos – enquanto corpo de artistas pretos, como burlar o cronograma branco e avançar nas profundezas do tempo das nossas querências? Espero que aqui, em rede, permaneçamos – é fruto deste Núcleo duas flash-residências artísticas, tardes e noites pra abrir arte, garrafas de vinho e organizar rolês internacionais; uma exposição no “Galpão”, gente conhecendo gente, indicando gente e falando de gente, noitadas inenarráveis nas cidades mineiras, material disponível, circulação das nossas produções por um monte de espaços que se abriram e abrimos por aí – entramos pelas frestas do conhecimento compartilhado, das conversas profundas, dos conselhos acolhidos. Nós no mundo, pro mundo, a partir da rede, fluindo das nossas línguas e corações, com a ambição de esparramar esse negócio que é a arte que pulsa quente dentro da gente.