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Uma Bienal em 5 parágrafos

por Fernando Hermógenes

Texto publicado em 19 de março de 2026
 

Evento: 36ª Bienal de São Paulo - Nem todo viandante anda estradas - Da humanidade como prática

Emeka Ogboh ( Nigéria),  Pol Taburet (França), María Magdalena Campos-Pons (Cuba) e Helena Uambembe ( África do Sul)

País: Brasil ( São Paulo - SP)

 

Período que viveu o evento: 6 de setembro de 2025 a 11 de janeiro de 2026: semanalmente ou quinzenalmente,  sempre na companhia de Ayla.

 

Local: Fundação Bienal de São Paulo - Pavilhão Ciccillo Matarazzo - Parque Ibirapuera ( São Paulo -SP)

 

Período do evento: 6 de setembro de 2025 a 11 de janeiro de 2026

 

FICHA TÉCNICA

Curador geral: Bonaventure Soh Bejeng Ndikung

Cocuradores: Alya Sebti, Anna Roberta Goetz, Thiago de Paula Souza

 

Cocuradora at large: Keyna Eleison

 

Cocuradores adjuntos: André Pitol, Leonardo Matsuhei

 

Consultora de comunicação e estratégia: Henriette Gallus

Projeto financiado por meio da Lei de Incentivo à Cultura (Ministério da Cultura e Governo Federal). Contou com a parceria estratégica do Banco Itaú  e com os   patrocinadores máster:  Bloomberg, Banco Bradesco, Petrobras, Instituto Cultural Vale, Citi Brasil e Vivo.

 

Dedico este texto ao amor da minha vida, minha filha, Ayla.

1. Como falar de sinais que não existem - pairava um comentário uníssono no ar do pavilhão, como uma neblina espessa, no dia cinco de setembro de 2025: a falha na sinalização de obras e artistas. Com o título < Nem Todo Viandante Anda Estradas - Da Humanidade Como Prática > a 36ª Bienal organizou 125 artistas, em seis Capítulos temáticos, divididos pelos três pavimentos do Pavilhão Ciccillo Matarazzo. Minha experiência de impacto – com a questão da sinalização – começa com a Sala de Acomodação Sensorial, patrocinada pela Petrobras e arena de muito transtorno na semana de abertura. Ignorando uma breve descrição, ao lado da porta da sala, as pessoas ora pensavam que era mais uma obra, ora pensavam que era uma sala de estar para o público geral e, enquanto o mundo decidia o que fazer com aquele quadrado de paredes vermelhas e interior escuro, Bruna e Ayla usaram para amamentação. A demanda por um mediador foi frequente. Como observador constante na Bienal, elenco aqui alguns fatores que tanto inflamaram o encontro entre a proposta curatorial e expográfica e a apreciação do público, desde aquele especializado ao que apenas passava por ali, enquanto aproveitava uma pausa no parque. Por um lado, está nítido que, em tempos de vício virtual, as pessoas desistiram (ao mesmo tempo em que fomos distanciados, desestimulados a) de qualquer esforço de leitura, aproximação, comunicação e abertura a uma outra experiência de relação com o objeto artístico. Por outro, percebi decepções genuínas relacionadas com, por exemplo, o convite para a leitura de QR Codes numa exposição artística, em que muita gente queria poder (ou ser convencida a) deixar o celular de lado e namorar um pouco de arte. Se a curadoria confiou a primazia da comunicação sobre as obras aos textos extensos nas pilastras cilíndricas, pecou ao não deixá-los sequer perto das produções e, ainda mais, por não tornar a experiência confortável, sem bancos próximos ou apresentando os textos em formatos mais interessantes. Eu mesmo me recusei a usar o celular dentro do pavilhão por mais tempo que o necessário para os registros de que precisava e para pagar por uma coisa ou outra. Tanto quanto pude, escolhi realizar o exercício atento de apreciação diante das instalações, dos textos e mediando aquela dada situação artística para a minha filha. Não poucas vezes, vi-me também confuso, ao procurar pelos espaços expositivos dos artistas no pavilhão.

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Sinalização para obras do artista Ernest Cole, que compunha o Capítulo 4 - Fluxos de Cuidado e Cosmologias Plurais, no 2º Pavimento do Pavilhão Ciccillo Matarazzo.
Foto de Fernando Hermógenes.

2.Territórios Violados - No Capítulo 2, “Gramáticas de Insurgências”, encontro a obra do artista nigeriano < Emeka Ogboh > The Way Earthly Things Are Going II (Mother Earth’s Lament) (O Rumo das Coisas Terrenas II - Lamento da Mãe Terra, 2025) < 2025 > que dispôs vários troncos recortados, com dispositivos sonoros instalados neles, numa sala com luz vermelha e cheiro de fumaça. Dos troncos, poemas de lamento com voz feminina ecoam e nos prendem com a dor de seu desaparecimento – agora é a hora em que só resta lamentar a memória do que já foi a árvore, o corpo e a vida na-com a terra. Invoco para este parágrafo o trabalho de dois artistas: primeiro, Augusto Leal, de Simões Filho-BA, que em 2022 inicia processo de coleta afetiva de troncos encontrados pela sua cidade, restos de árvores derrubadas pela prefeitura de forma injustificada. Esse processo é compartilhado no seu Instagram, desde o momento da derrubada com o caminhão e funcionários da prefeitura, até a coleta e chegada dos troncos no seu ateliê. Vão, em seguida, virando obras, corpos alargados, livros, conversas. O cotidiano com o material coletado é processo de luto e ressignificação, ressurgimento, despertando as memórias do artista em seu quintal da infância, a roça na adolescência, a marcenaria e uma vida de plantas ao seu redor. Da artista Rastros de Diógenes-RJ destaco uma relação que hibridiza, mergulha, funde sua existência com todas aquelas variedades vegetais que observa e cultiva. Ouvindo Emeka tantas vezes, Rastros aparecia pra mim como a continuação daqueles troncos cortados, como se a Diógenes terminasse toda a altura, largura e profundidade do amor da seiva do verde do Sol e da Lua e de todos os elementos pelos quais chorava o coro naquela sala. Aponto para a ação-ritual < YBYRATYBA > 2022 <, um auge de fundição das corpologias Dyó y Floresta. Nas palavras dela: “enquanto as mechas do meu cabelo se entrelaçaram com os fios das plantas, eu sentia a incorporação da energia das memórias que semeamos a partir da seiva. Árvores como pilares deste mundo, sustentando o céu, ancorando a pele terrena em nossas águas, coordenadas pela lua em sintonia com as marés oceânicas a poucos quilômetros de nós. O fluxo circular de toda a energia trocada.” 1

< YBYRATYBA > 2022 < da artista Rastros de Diógenes.
Performance realizada no Jardim Municipal de Niterói-RJ. Foto de Thainá Iná.

3. Fez bem claro e eu fotografei -- entrar na < Borrow Light (Emprestar a Luz) > 2025 < de > Song Dong < era participar de um jogo coletivo não-acordado, entre aqueles que comungavam do espaço, fazendo (e nisso me incluí, algumas vezes) uma coreografia para caber no enquadramento instagramável, sair do campo de registro do outro, esperar por um pedaço livre de espelho, luz e objeto, pouco (ou nada) observar, além da foto e logo sair, para concluir a postagem. Uma instalação que acordava o narciso pessoal e, tão rápido era despertado, logo se afogava no compartilhar, diluía-se em visualizações e reações. Gosto de frequentar uma outra Borrow Light, na cidade de São Paulo, a FAS Iluminação, onde o ato de iluminar é conjugado com uma genialidade que torna seu salão uma praça fantástica, temperando com pensamento proposta humor mundo afetações convites… aqueles objetos que, em outras instâncias, são meramente utilitários. Em ambos os espaços, lâmpadas de estilos variados estão expostas de formas pouco convencionais, há extravagância e um quê de estranhamento que nos envolve e estimula a olhar e olhar de novo. Na obra de Dong, estamos de passagem, tão logo a foto é feita, já que aqueles metros quadrados, com seus espelhos e luzes, nos remete de cara aos códigos do registro e compartilhamento, da selfie, do aparecimento, do amostrar.

Ayla e eu na obra < Borrow Light > 2025 < de Song Dong. A instalação situava-se

no Capítulo 2 - Gramáticas de Insurgências, no 1º Pavimento do Pavilhão Ciccillo Matarazzo.

Selfie de Fernando Hermógenes.

4. Como sofrer junto - assisti às < pinturas > de < I Gusti Ayu Kadek Murniasih (Murni) > no mesmo tempo em que lia o capítulo The Traumatized Vagina (A Vagina Traumatizada), escrito por Naomi Wolf, em seu livro Vagina - A New Biography (Vagina - Uma Nova Biografia), no qual a autora entrevista especialistas que trabalharam, por décadas, com mulheres que sofreram estupro por exércitos, atuando em conflitos no Sul Global, especialmente aqueles em África. No capítulo, os especialistas relatam várias estratégias usadas pelos soldados para solapar, destruir a sexualidade das mulheres, com o intuito de passar a controlar seus corpos, mentes e o que restou de suas comunidades, com facilidade diante de qualquer necessidade que surgisse. Como o trauma é em larga proporção, simultâneo e permanente, o estrago social está feito, e com baixo custo. Enquanto escrevo este texto, entre janeiro e março, acompanhamos uma onda crescente de feminicídio no Brasil – de acordo com nota publicada pelo Conselho Nacional de Justiça em março: janeiro de 2026 teve registro 3,49% maior de feminicídios do que em janeiro de 2025. A biografia de Murni, artista balinesa falecida em 2006, é permeada por abusos físicos e sexuais frequentes (incluindo o terror do estupro pelo pai, aos 9 anos). Tais experiências traumáticas aparecem nas telas cruzando, ao mesmo tempo, doses de sarcasmo e uma proposição de erótica feminina, desobediente ao senso comum, com seus corpos femininos de cores vibrantes sendo encaixados com objetos como faca, tesoura, pincel, cadeado, sugerindo o expurgo da dor. Com um corpo de obra que registra seu imaginário erótico tão singular, Murni reivindica uma sexualidade feminina fluida, livre, espontânea, não domesticada por tabus sobre ser mulher e ser mulher-artista em sua época e contexto.

5. Afinidade afetiva - encerro o texto, inspirado a partir do olhar e das manifestações de um bebê muito especial, Ayla, minha filha, que esteve comigo em todas as visitas que fiz à Bienal. Desde os seus 3 meses, a Bienal foi um repertório visual quase semanal na sua rotina, e ela causou e “foi causada” durante essas peregrinações. Saíamos da Travessa Galiano Olivato, 94, ou da Avenida Francisco Morato, Vila Sônia, rumo ao Parque Ibirapuera, todas as vezes de ônibus para ir, e uma única vez de Uber para voltarmos a casa. As instalações sonoras de < Emeka Ogboh > < Leonel Vásquez > < Helena Uambembe > e < Nguyên Trinh Thi > e a participação especial de < Raiany Sinara > no Programa Sônico  da Bienal foram as que mais estimularam esse pequeno ser. Preparando uma curadoria alinhada com minhas-nossas afinidades afetivas nas visitas que fazíamos, eu mostrei com frequência e conversei bastante com ela sobre as pinturas de < María Magdalena Campos-Pons > destacando desde as variadas belezas do corpo que floresce, frutifica, abre-se como trepadeira forte e saudável pelo mundo às convulsões que este mesmo corpo sente, ao viver tal mundo mergulhado em desigualdades; e < Pol Taburet > que me capturou com a sua montagem enigmática e constrangedora, ao me expor à cena de um ritual ou julgamento, ao qual pareço chegar por descuido, por engano – um visitante indesejado. Naquele ambiente, eu fazia perguntas à Ayla, que respondia com seus monossílabos. Olhar a arte pelos olhos minuciosos, rastejantes, tão abertos e curiosos dessa qualidade de experiência de vida é tão delicioso que fiz dela minha parceira de visita. As mãozinhas ligeiras que, nada cientes de que a arte não é pra ser tocada, vão com todo o impulso pra cima das folhas e tecidos. Foi na primeira Bienal de sua vida que ela conheceu o afeto do abraço de artistas preciosos da rede, como Carol Petrucci, Márcio Vasconcellos, as hermanas do Laboratório de Drawing Performance e Âmbar Moura, que integrou a < Ocupação Sertão Negro > durante a exposição. Sem se implicar com as grandes questões e debates da arte contemporânea, acredito que sua passagem pela Bienal foi feliz - especialmente pela atenção dada às necessidades dela pela equipe de mediação, oferecendo ajuda sempre que nos percebiam em apuros ou quando solicitei. Quer a Ayla ficasse acesa, com tanta interação, ou capotasse em autoproteção, eu sempre entrava naquele prédio e saía dele interiormente ocupado, com o desafio de falar-lhe muito (ainda) da humanidade como prática.

Ayla e eu em < Someone’s Child > 2025 < do francês Pol Taburet, no Capítulo 3 - Sobre Ritmos Espaciais e Narrações, localizada no 2º Pavimento do Pavilhão Ciccillo Matarazzo. Foto de Bruna Braga.

1. Trecho extraído de: https://www.artseverywhere.ca/sap-memories/

Saiba mais :

 

Âncora 1
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